Abril é o mês em que o Dia dos Povos Indígenas (19/04) convida a pensar em quem está ausente dos debates que dizem respeito a todos. E no campo da avaliação psicológica, essa ausência é estrutural, não acidental. Os instrumentos mais usados no Brasil foram desenvolvidos e normatizados majoritariamente com amostras urbanas, de determinadas regiões, com acesso a escolarização formal e a um modo de vida que reconhece como natural coisas como sentar-se numa sala com um desconhecido, responder a perguntas sobre sentimentos abstratos, manipular figuras geométricas num tempo cronometrado.

Para uma parcela expressiva da população brasileira, indígena, quilombola, ribeirinha, do sertão, da periferia urbana profunda, esse conjunto de pressupostos não é neutro. É estranho. E o que aparece no escore pode dizer mais sobre o estranhamento do que sobre o funcionamento psicológico da pessoa.

O problema da validade ecológica

Validade ecológica é a capacidade de um instrumento de capturar o funcionamento da pessoa no seu ambiente real, não apenas no ambiente artificial do consultório ou da sala de aplicação. É um conceito que a psicologia clínica frequentemente invoca para a avaliação de crianças, mas que se aplica com toda força à avaliação de adultos de contextos culturais distintos.

Há instrumentos de inteligência cujas tarefas envolvem reconhecer e manipular objetos que pertencem a determinado universo cultural, blocos de madeira, quebra-cabeças geométricos, figuras de ação que remetem a um repertório específico. Uma criança que nunca teve acesso a esse repertório não está demonstrando capacidade cognitiva menor. Está demonstrando que o teste foi feito sem ela em mente.

A pesquisa em avaliação transcultural, área ainda pequena no Brasil, mas crescente, tem mostrado que adaptações culturais de instrumentos não são mero exercício de tradução. Envolvem repensar quais tarefas fazem sentido, quais construtos são universais e quais são específicos de cultura, e como coletar dados de normatização que reflitam a heterogeneidade real da população.

Avaliação e raça no Brasil

O 13 de maio, data da abolição formal da escravatura, que se antecipa por dias ao fim de abril, é um lembrete de que o Brasil construiu sua estrutura social sobre uma hierarquia racial que ainda produz efeitos mensuráveis na saúde mental, no acesso a recursos e nas condições de vida da população negra.

Avaliação psicológica opera nesse contexto. Uma pessoa negra que chega para avaliação pode estar carregando o peso de exposição crônica ao racismo, que a literatura internacional reconhece como fator de risco para ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, e isso não vai aparecer nos escores de um instrumento de rastreio genérico. O que vai aparecer é sofrimento. E o laudo vai nomear esse sofrimento sem nomear sua causa.

Há também uma dimensão menos discutida: a própria relação entre avaliador e avaliado é atravessada por marcadores sociais. Um psicólogo branco avaliando uma pessoa negra, em determinados contextos, produz uma assimetria que pode afetar a expressão do avaliado, sua disposição para revelar conteúdo interno, sua performance em tarefas que dependem de confiança e relaxamento. Isso não invalida o processo. Mas precisa ser considerado.

Avaliação no SUS: condições reais, instrumentos idealistas

Grande parte das avaliações psicológicas no Brasil acontece fora do consultório particular, em centros de saúde, CAPS, ambulatórios, escolas públicas, varas da infância. Nessas condições, o profissional frequentemente dispõe de tempo restrito, espaço inadequado, ausência de material atualizado, e uma demanda que pressiona por laudos rápidos e conclusivos.

Os protocolos ideais descritos nos manuais foram pensados para condições que muitos serviços públicos simplesmente não têm. O que fazer com isso não é uma pergunta retórica, é uma pergunta ética urgente. Porque o laudo produzido nessas condições vai ter efeitos reais sobre pessoas reais: vai definir encaminhamentos, vai fundamentar decisões judiciais, vai abrir ou fechar portas.

A resposta não é baixar o padrão. É ser transparente sobre as limitações. É o laudo que registra que a avaliação foi feita em condições que comprometem determinadas conclusões. Que indica a necessidade de avaliação complementar. Que nomeia o contexto em vez de fingir que ele não existe.

Competência cultural como competência técnica

O CFP tem avançado em diretrizes que reconhecem a diversidade como fator de avaliação, mas a formação dos profissionais ainda patina. Não basta saber que existe diversidade cultural. É preciso saber o que fazer com ela dentro de um protocolo de avaliação: como adaptar a entrevista, quais hipóteses levantar, quando um instrumento simplesmente não é adequado para aquela pessoa e precisa ser substituído ou complementado.

Competência cultural em avaliação não é sensibilidade. É habilidade técnica, construída com estudo, supervisão e honestidade sobre os limites do que se sabe. E começa com uma pergunta simples, que deveria estar em todo protocolo: para quem este instrumento foi desenvolvido, e quão diferente é a pessoa à minha frente?

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.