Existe uma cena que se repete nos serviços públicos de saúde mental do Brasil com frequência suficiente para merecer atenção. Uma pessoa percorre o circuito da demanda, espera na UBS, aguarda triagem no CAPS, é encaminhada para avaliação psicológica, retorna semanas depois, passa por sessões de aplicação de instrumentos, e ao final recebe um documento. Às vezes o documento vai para o prontuário. Às vezes é entregue numa pasta plástica. Em poucos casos alguém senta com a pessoa e explica o que ele diz, por quê, o que significa para o tratamento.

Isso se chama ausência de devolutiva. E não é um detalhe.

O que a resolução diz, e o que acontece na prática

A Resolução CFP nº 09/2018 estabelece que a devolutiva é parte constitutiva do processo de avaliação psicológica. Não é opcional. Não é cortesia. É um momento em que os resultados são restituídos à pessoa avaliada de forma compreensível, com espaço para perguntas, dúvidas e dissonâncias.

Na prática, o que frequentemente acontece é que a devolutiva se reduz a uma frase no consultório, "o resultado indica isso", ou sequer ocorre. Num serviço público sobrecarregado, a pressão por volume de atendimentos torna a devolutiva um luxo que o fluxo não comporta. E a pessoa sai com um número, um diagnóstico sugerido, uma categoria, e sem entender o que fazer com isso.

Maio é mês da Luta Antimanicomial. É mês em que se discute a reforma psiquiátrica, o direito ao cuidado em liberdade, a dignidade das pessoas em sofrimento mental. Devolutiva é um tema antimanicomial, ainda que raramente seja apresentado assim. Reduzir uma pessoa a seu escore, entregar um laudo sem explicação, tratar o diagnóstico como destino, são gestos que reproduzem, em versão suave, a mesma lógica de objetificação que a luta antimanicomial combate.

Devolutiva com quem? Para quem?

A questão de quem recebe a devolutiva é mais complexa do que parece. Em avaliações de crianças e adolescentes, há quase sempre a família envolvida, e o que se diz aos pais pode entrar em rota de colisão com o que se deve ao sujeito avaliado. Uma criança de dez anos que está sendo avaliada tem direito a saber o que os adultos concluíram sobre ela, numa linguagem que faça sentido para ela. Esse direito frequentemente é pulado.

Em avaliações de adultos em contextos de trabalho, perícia ou benefício previdenciário, a devolutiva encontra um obstáculo diferente: o laudo não é do profissional que atende, é para uma instituição, um juiz, uma empresa. Quem avalia nesse contexto precisa ser claro com a pessoa avaliada sobre o que o laudo vai conter, a quem vai ser enviado e quais podem ser as consequências. Essa é uma forma de devolutiva, a que acontece antes, não depois.

O que uma boa devolutiva produz

Quando conduzida com cuidado, a devolutiva faz coisas que o laudo escrito não consegue. Ela permite que a pessoa avaliada reconheça ou conteste o que está sendo dito sobre ela. Ela abre espaço para que o avaliador revise uma hipótese que, à luz da reação do avaliado, parece não se sustentar. Ela transforma o processo de avaliação num encontro clínico, e não numa perícia mecânica.

Há algo epistemicamente importante aqui: a pessoa avaliada é a principal especialista em si mesma. Os instrumentos oferecem dados padronizados. A entrevista oferece narrativa. A devolutiva é o momento em que essas duas fontes se encontram com o sujeito que as originou, e onde inconsistências podem ser investigadas em vez de enterradas no laudo.

Na minha prática, as avaliações mais úteis que conduzi foram as que produziram perguntas boas. Não as que encerraram diagnósticos, mas as que abriram hipóteses que o próprio avaliado podia carregar para o tratamento seguinte. "Você observa isso em outras situações?" "Faz sentido o que estou descrevendo?" "Tem algo que você gostaria de corrigir ou acrescentar?"

Devolutiva no SUS: o que é possível

O argumento de que o SUS não tem tempo para devolutiva é parcialmente verdadeiro e inteiramente perigoso. Parcialmente verdadeiro porque as condições de trabalho nos serviços públicos são, em muitos casos, insustentáveis. Inteiramente perigoso porque normaliza uma prática que prejudica as pessoas com menos recursos para questionar o que um laudo diz sobre elas, que são, em geral, as que mais dependem do serviço público.

O que é possível fazer, mesmo com tempo restrito: reservar quinze minutos no final da última sessão de aplicação para uma devolutiva breve e honesta sobre os achados principais. Entregar um resumo escrito em linguagem acessível junto ao laudo técnico. Perguntar se a pessoa tem dúvidas antes de encerrar o atendimento. Registrar no prontuário que a devolutiva foi realizada, e o que a pessoa disse.

São gestos pequenos. Não substituem a devolutiva estruturada que a resolução prevê. Mas são a diferença entre um processo que respeita o sujeito e um processo que o processa.

A avaliação psicológica bem feita não termina com o laudo assinado. Termina quando a pessoa que passou pelo processo tem alguma chance de usar o que aprendeu sobre si mesma.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.