Toda vez que março chega, a saúde mental da mulher brasileira aparece nas pautas dos portais, nas capas das revistas, nos stories das clínicas. E toda vez que abril começa, essa conversa recua. Não desaparece, recua. Fica menor, menos urgente, menos visível. Há algo de profundamente sintomático nessa sazonalidade.

Não estou dizendo que as campanhas de março são inúteis. Estou dizendo que elas têm um limite estrutural: tratam como pauta o que é condição permanente. A carga mental da mulher, esse trabalho invisível de gerenciar a logística da casa, a agenda dos filhos, as emoções da família, as demandas do trabalho, não tira férias em abril. O esgotamento da mãe solo não espera o Dia das Mães para se agravar. A violência doméstica não tem mês favorito.

O que os dados de campo mostram, com cuidado

Aqui preciso ser honesto sobre os limites do que sabemos. Os dados disponíveis sobre saúde mental de mulheres no Brasil são escassos, fragmentados e raramente representativos das populações mais vulneráveis. O que temos são sinais: mulheres buscam mais atendimento psicológico que homens; os diagnósticos de transtornos de ansiedade e depressão são mais frequentes entre mulheres; mulheres negras estão sub-representadas nos serviços privados e superexpostas às vulnerabilidades que os serviços públicos não conseguem absorver.

Esses sinais apontam numa direção, mas não chegam a constituir um mapa preciso. A pesquisa brasileira em saúde mental com recorte de gênero ainda é mais escassa do que deveríamos admitir em público.

O que posso afirmar com mais segurança é o que vejo no consultório e o que os relatos de colegas confirmam: mulheres chegam ao atendimento psicológico com frequência depois de anos sustentando o sofrimento dos outros. Chegam exaustas de serem o recurso emocional da família. Chegam com uma dificuldade específica de nomear a própria dor, porque foram treinadas, ao longo da vida, a priorizar a dor alheia.

O que a clínica pode fazer, e o que não pode

A clínica psicológica pode criar um espaço onde a mulher existe para além das funções que ocupa. Pode ajudar a nomear o que estava sem nome. Pode acompanhar processos de tomada de decisão sobre relações, trabalho, maternidade, identidade, sem prescrever respostas, mas oferecendo a possibilidade do pensamento sem julgamento.

O que a clínica não pode fazer sozinha é resolver o que é estrutural. A exaustão de uma mulher que trabalha oito horas, volta para casa e trabalha mais seis em cuidados não remunerados não se resolve com psicoterapia. Ela se resolve com política pública, com redistribuição de tarefas domésticas, com rede de suporte. A clínica pode ajudar a mulher a atravessar esse peso, mas confundir travessia com solução é um equívoco que o campo não pode se dar ao luxo de cometer.

Por que este editorial existe agora

Escolhi escrever sobre isso na primeira semana de março porque quero que o leitor perceba a armadilha do calendário, e não caia nela. Se este texto serve para alguma coisa além do mês em que aparece, é para lembrar que a saúde mental da mulher brasileira é pauta de janeiro a dezembro.

E se você é psicólogo ou psicóloga lendo este portal: obrigado por estar aqui. O trabalho que você faz, com frequência mal remunerado, emocionalmente custoso e pouco reconhecido socialmente, é parte da resposta a um problema que o Brasil ainda não sabe dimensionar corretamente. Continuar nele, com cuidado e com crítica, é um ato político tanto quanto clínico.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.