Existe uma geração de adultos brasileiros que cresceu sem diagnóstico de autismo. Não porque o transtorno não existia neles, existia. Mas porque os critérios diagnósticos eram mais estreitos, o acesso à avaliação especializada era ainda mais precário do que hoje, e a cultura clínica da época tinha dificuldade em ver autismo fora do perfil estereotipado do menino branco com comprometimento severo de fala. Mulheres, pessoas negras, pessoas com alto nível de camuflagem social, todos ficaram de fora do radar.

Essa geração está chegando agora aos consultórios. Trinta, quarenta, cinquenta anos. Às vezes chegam porque um filho foi diagnosticado e algo no processo lhes pareceu familiar. Às vezes chegam porque leram algo, ouviram um podcast, reconheceram-se numa lista de características. Às vezes chegam depois de décadas de diagnósticos errados, depressão, ansiedade, transtorno de personalidade borderline, que tratavam os sintomas sem nomear a origem.

O que o diagnóstico tardio faz

O diagnóstico tardio de autismo na vida adulta é um fenômeno com fenomenologia própria, e ainda pouco estudado na literatura brasileira. O que aparece com frequência, na experiência clínica de quem atende esse perfil, é uma combinação de alívio e luto. Alívio porque finalmente há um nome para algo que a pessoa carregou sem poder nomear. Luto porque décadas se passaram, escolhas foram feitas sem a informação que poderia ter mudado o percurso, escolhas de relacionamento, de carreira, de como entender a si mesma.

Não é incomum que adultos com diagnóstico tardio tragam uma história longa de autoculpabilização. "Eu sou difícil demais." "Eu não consigo me encaixar em lugar nenhum." "Eu me esforço, mas nunca fica bom." Quando a clínica finalmente coloca outra moldura nessa narrativa, não dificuldade moral, mas diferença neurológica que opera de maneira específica, o efeito pode ser significativo. Mas precisa ser feito com cuidado, sem pressa, e sem romantizar o diagnóstico.

O que a clínica ainda não faz bem

A avaliação de autismo em adultos no Brasil ainda é precária. Poucos profissionais têm formação específica para esse perfil. Os instrumentos de avaliação disponíveis foram, em sua maioria, desenvolvidos para crianças e em populações do Norte global, sua validade para adultos brasileiros, especialmente mulheres negras e pessoas de baixa renda com histórico de camuflagem social, merece mais cautela do que frequentemente recebe.

Há também um risco crescente de sobrediagnóstico impulsionado pela popularização do tema nas redes sociais. Isso não invalida os casos reais, que são muitos, mas exige que o clínico mantenha rigor diagnóstico sem usar isso como razão para fechar a porta para avaliações legítimas. O equilíbrio não é simples, e quem diz que é provavelmente não está pensando com profundidade suficiente.

Abril Azul, a campanha de conscientização sobre autismo, cresceu em visibilidade. O que ainda não cresceu na mesma proporção é a infraestrutura de avaliação e acompanhamento para adultos, especialmente no SUS. O CAPS pode oferecer suporte, mas raramente tem profissional com formação específica em autismo adulto. A psicoterapia individual, quando acessível, pode ajudar, mas precisa ser conduzida por quem entende as especificidades do perfil autístico, e não apenas aplicar protocolos desenvolvidos para outros perfis.

O que precisamos construir

Uma clínica que atende adultos com suspeita ou diagnóstico tardio de autismo precisa, antes de mais nada, saber ouvir uma história de vida inteira. Precisa ter humildade diante da complexidade de cada trajetória. Precisa resistir à tentação de encaixar tudo no perfil mais visível e estudado.

E precisa reconhecer que o adulto que chega ao consultório com quarenta anos e um diagnóstico novo está, em algum sentido, começando de novo, não a vida, mas a narrativa de si. Acompanhar isso é um privilégio clínico e uma responsabilidade que o campo ainda está aprendendo a honrar.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.