Hoje é vinte e dois de janeiro de 2026. Trinta dias úteis desde que abrimos o portal. Vinte anos de prática clínica. Dez de fundação de tecnologia para saúde mental. Esta peça é tentativa de cravar o que aprendi sobre o que a clínica brasileira ainda não pode ensinar.
O que aprendemos a fazer bem
A formação de psicólogo brasileiro melhorou substancialmente nas últimas duas décadas. Os cursos de graduação cresceram em número e em qualidade. As supervisões clínicas em estágios e residências são mais disciplinadas. Os programas de pós-graduação produzem pesquisa com rigor metodológico que em 2006 era exceção.
Aprendemos a fazer primeira sessão. Aprendemos a fazer manejo de quadros agudos. Aprendemos a fazer encaminhamento psiquiátrico em parceria com colegas médicos. Aprendemos a trabalhar com luto, com ansiedade, com depressão, com transtornos de personalidade. As ferramentas estão lá.
Aprendemos também, em algumas regiões, a fazer trabalho em equipe interdisciplinar. Em CAPS bem montados, em hospitais de referência, em consultórios particulares organizados em equipe. O trabalho em equipe ainda é exceção, mas é exceção em expansão.
O que ainda não aprendemos a ensinar
Há um conjunto de competências clínicas que reconheço em colegas com mais de quinze anos de prática, que não consigo descrever em currículo de formação. Isso é problema.
A primeira: tolerar o caso que não se resolve. Casos crônicos, com sofrimento sustentado por anos, que não respondem a tratamento padrão. A clínica jovem pressiona por solução. A clínica madura aprende a sustentar acompanhamento sem perder o cuidado. O trânsito da primeira para a segunda postura leva anos. Não há disciplina que ensine.
A segunda: separar transferência institucional de transferência pessoal. Em hospital, o paciente endereça ao terapeuta coisas que pertencem à instituição. Em consultório particular, ele endereça coisas que pertencem à profissão. Distinguir as três camadas - pessoal, profissional, institucional - é trabalho clínico cotidiano. Os manuais cobrem mal.
A terceira: trabalhar com diferença de classe sem patologizar. Psicólogos formados em universidade pública ou particular cara atendem, com regularidade, pacientes de classes sociais bem distintas das próprias. A diferença material entra no consultório de formas que a literatura clínica brasileira ainda não cravou em manual.
A quarta: clínica em emergência climática. Vimos no Rio Grande do Sul em 2024 que ferramentas existiam, mas estavam dispersas. Sistematizar a clínica brasileira de emergência é tarefa dos próximos anos.
Por que a transmissão informal não basta
A formação por convívio com profissional experiente funciona, mas tem alcance limitado. Depende de mentor disponível, de tempo, de geografia. Não escala para a formação de uma geração inteira de psicólogos brasileiros.
Para escalar, é preciso escrever. Escrever em formato que outras pessoas possam ler. Escrever sobre o que não está nos manuais. Escrever sobre o que se aprende fazendo. Escrever com a humildade de saber que é primeiro esforço, e a coragem de tentar.
Este portal nasce em parte como tentativa de criar espaço editorial para essa escrita. Não substitui formação universitária. Complementa. Não substitui supervisão. Complementa. Oferece um lugar onde clínicos brasileiros podem escrever sobre o trabalho que fazem de uma forma que serve outros clínicos brasileiros.
O que estamos pedindo
Esta Cadeira do Editor é meu lugar de escrita. Os Scribas têm os seus. Mas o portal só faz sentido se a comunidade clínica brasileira mais ampla também escrever. Em comentários, em respostas, em peças convidadas que vamos publicar ao longo do ano, em diálogo crítico com o que os Scribas trazem.
Janeiro é mês de início. O que estamos pedindo, em vinte e dois de janeiro de 2026, é que os leitores tomem este portal como espaço próprio. Não para consumir. Para participar.
O que vou tentar fazer aqui
Nesta Cadeira, pretendo escrever uma peça por mês ao longo de 2026. Cada uma sobre o que estou aprendendo na prática clínica e na fundação de tecnologia. Sem garantia de qualidade uniforme. Com compromisso de honestidade.
Em fevereiro, peça sobre tecnologia para saúde mental em 2026: o que funciona, o que não funciona, o que está em zona cinzenta. Em março, peça sobre formação de psicólogo para era das ferramentas digitais.
A pauta segue.
Bom segundo terço de janeiro a quem está acompanhando.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.