O Dia das Mães chega sempre carregado de um imaginário que a clínica psicológica, se for honesta, tem dificuldade em sustentar sem ambivalência. O imaginário da mãe plena, realizada, amorosa em todas as circunstâncias. A mãe que não erra, que não adoece, que não quer às vezes, e é preciso poder dizer isso, ter um pouco de paz e de si mesma, longe dos filhos que ama.
Essa ambivalência é perfeitamente humana. A psicologia sabe disso. O consultório sabe disso. O que não conseguimos ainda, como campo e como cultura, é dizer isso em voz alta sem que alguém se sinta atacado.
Vou tentar dizer.
A maternidade como território clínico
A depressão pós-parto é uma das condições mentais mais prevalentes e mais subdiagnosticadas em mulheres brasileiras. Não porque falta conhecimento clínico, o quadro é bem descrito, bem reconhecido na literatura. É porque falta janela diagnóstica: o sistema de saúde acompanha bem a gestação e pouco o puerpério; as mulheres são enviadas para casa depois do parto com um recém-nascido e, frequentemente, sem rede de suporte; e a cultura da maternidade perfeita torna muito difícil admitir que algo não vai bem.
A mãe que não sente o que "deveria" sentir, amor imediato, entrega total, gratidão irrestrita, frequentemente interpreta esse não-sentimento como defeito moral próprio. Não como possível sinal de adoecimento que merece cuidado. Não como resposta compreensível a um período de privação de sono, de mudança de identidade, de alta demanda física e emocional simultânea.
O que a clínica pode oferecer
A psicoterapia no puerpério e no período mais longo da criação dos filhos tem espaço real. Não para resolver o que é estrutural, a sobrecarga de cuidado, a ausência de rede, a desigualdade de gênero na divisão do trabalho doméstico, mas para oferecer um lugar onde a mãe pode existir como pessoa, não apenas como função.
Esse é um ponto que a clínica às vezes esquece: a mãe em atendimento não é só "a mãe de". Ela é sujeito com história, com desejos, com conflitos próprios que antecedem os filhos e que não desaparecem com a maternidade. Tratá-la apenas a partir do papel materno é reduzir o sujeito à função, e isso, paradoxalmente, prejudica a maternidade que se quer apoiar.
Há também algo importante a dizer sobre mães negras, mães periféricas, mães solos: as condições em que a maternidade é exercida importam clinicamente. Uma mãe que cria três filhos sozinha, num contexto de violência urbana, sem acesso a serviços de saúde mental, não está tendo "dificuldades de manejo", está vivendo sob uma carga que a clínica convencional frequentemente não dimensiona com honestidade.
O que o portal escolhe celebrar
Neste Dia das Mães, este portal não vai circular uma mensagem de celebração pura. Vai fazer o que acho que a psicologia deve fazer: nomear a complexidade com cuidado, sem culpar as mães pelo que a estrutura lhes impõe, sem romantizar o que é difícil, sem fingir que o amor resolve o que é social e político.
Às mães que estão bem: que continuem. Às que estão exaustas: que encontrem suporte. Às que estão sofrendo em silêncio: que saibam que o silêncio não é obrigação, e que há, ou deveria haver, lugar para a dor delas no sistema de saúde do país.
Este portal existe também para elas.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.