Há um momento no calendário brasileiro que me interessa muito menos pelo que ele celebra do que pelo que ele revela. O Carnaval não é uma interrupção da vida psíquica; é, na verdade, um dos poucos instantes em que ela vem à superfície com menos filtragem. Vinte anos de consultório ensinaram que o que uma pessoa faz no Carnaval, ou o que ela não faz, e por quê, diz coisas que o setting clínico leva meses a escutar.
Não estou romantizando a folia. A violência de gênero aumenta no período, o consumo de álcool sobe, e a chamada "ressaca emocional" que chega na Quarta de Cinzas é real, uma queda de humor bem documentada clinicamente em populações que viveram dias de alta estimulação seguidos de retorno abrupto à rotina. Sei disso. E exatamente por saber, me recuso a entregar ao Carnaval um elogio ingênuo.
O que o festejo suspende
O que me fascina é outro fenômeno: o Carnaval é uma das raras ocasiões em que estruturas de hierarquia e vergonha se afrouxam de maneira socialmente sancionada. A fantasia não é só roupa, é autorização temporária para existir de outro jeito. O homem negro que ocupa o centro da avenida. A travesti que desfila sem pedir licença. O tímido crônico que dança na rua. A mulher que não precisa sorrir para ninguém.
Winnicott escreveu sobre o brincar como espaço de existência genuína. Não estou dizendo que o Carnaval é terapia, estou dizendo que ele produz, em escala coletiva, algo funcionalmente parecido com o que Winnicott chamava de área transicional: um espaço onde o inside e o outside se tocam sem fundir, onde a pessoa pode experimentar versões de si sem o custo definitivo da identidade.
Para o clinicista brasileiro, isso não é curiosidade folclórica. É dado clínico. Quando o paciente volta na semana após o Carnaval com uma sensação de perda que ele não sabe nomear, vale a pena perguntar: o que você foi lá que não costuma ser? O que apareceu que você normalmente mantém guardado?
A ressaca que não é só de álcool
A Quarta de Cinzas tem seu nome por razões religiosas, mas adquiriu uma fenomenologia própria na cultura brasileira. É um dia de queda. A rotina retorna com uma dureza particular porque foi suspensa com uma intensidade particular. No consultório, ouço isso com frequência: não apenas cansaço físico, mas uma espécie de tristeza difusa, uma sensação de que a vida "real" é menor do que aquela parentética.
Há indícios, e aqui falo de observação clínica acumulada, não de dado experimental, de que esse movimento de alta estimulação seguida de queda brusca pode ser especialmente difícil para pessoas com histórico de episódios depressivos, transtorno bipolar ou traumas de abandono. O fim da festa é real. A questão é o que cada um faz com esse real.
Na saúde pública, o período carnavalesco raramente é pensado como janela de atenção em saúde mental. Os CAPS funcionam em regime reduzido, os serviços de urgência ficam sobrecarregados por outras demandas, e a população mais vulnerável, que justamente mais vive o Carnaval como uma das poucas evasões disponíveis, não tem para onde ir quando a evasão termina.
O que o portal quer fazer com isso
Este Psicologia em Pauta nasce no período pós-carnavalesco. A coincidência não é casual, foi deliberada. Há algo de simbólico em começar uma publicação de psicologia justo quando o país retira a fantasia e se pergunta, coletivamente, o que fica.
O que fica, espero, é uma certa capacidade de nomear. Isso é, em última instância, o que a psicologia como campo faz de melhor: oferece linguagem para experiências que acontecem antes de terem nome. A depressão de fevereiro. A exaustão de retomar. O vazio que a festa escondeu e a sobriedade reexpõe.
Não tenho respostas definitivas para o que o Carnaval diz à clínica. Tenho, isso sim, a convicção de que um portal de psicologia que se propõe a falar do Brasil precisa estar presente também nessa conversa, a conversa que acontece depois que a música para e o silêncio, às vezes incômodo, instala-se.
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