O outono começa no dia 20 de março no hemisfério sul, e no Brasil isso significa coisa diferente do que significa em Lisboa ou em Paris. Não é neve. Não é o dramático esvaziamento das árvores que figura na iconografia europeia do outono. É, dependendo da região, uma leve redução de calor, um encurtamento gradual dos dias, uma mudança de luz. Sutil, mas presente.
Interessa-me a sutileza, porque a clínica é feita de sutilezas.
Há um debate antigo, e não resolvido, sobre o quanto as mudanças sazonais afetam o humor em populações tropicais. O transtorno afetivo sazonal clássico, ligado à escassez de luz do inverno, é fenômeno bem documentado em latitudes altas. Sua expressão em populações brasileiras é muito menos estudada. Não é razoável importar diretamente o modelo nórdico sem ajuste, e qualquer profissional que o faz está cometendo um erro epistemológico que merece ser nomeado.
O que as estações fazem, mesmo aqui
Isso dito, seria igualmente equivocado afirmar que as mudanças sazonais são clinicamente irrelevantes no Brasil. Há indícios, raros, insuficientes, mas existentes, de que alterações de luz e temperatura afetam sono, humor e energia em populações de regiões temperadas do Brasil, especialmente no Sul. O que acontece no Norte e no Centro-Oeste, com padrões climáticos distintos, é ainda menos estudado.
O que posso dizer da clínica é que o outono brasileiro tem uma fenomenologia própria que aparece no consultório. Não raro, pacientes descrevem uma espécie de desaceleração que não identificam como depressão, mas que tampouco conseguem nomear de outro jeito. Menos disposição para atividades sociais. Uma certa melancolia difusa. Uma vontade de recolher-se que, em si, não é patológica, pode ser, inclusive, funcionalmente necessária.
A questão clínica relevante não é se a estação causa isso, mas o que a pessoa faz com esse movimento interior. Se a desaceleração abre espaço para reflexão, repouso, reconexão consigo, é uma forma de autorregulação que merece ser reconhecida e não patologizada. Se ela se aprofunda em isolamento, perda de função, desesperança, aí o quadro pede atenção e, possivelmente, intervenção.
O que a clínica aprende quando para de medicalizar o ritmo
Há uma tendência crescente, nos consultórios privados mais do que nos públicos, de tratar qualquer flutuação de humor como sinal de transtorno a ser gerenciado. Isso cria pacientes que se vigiam constantemente e chegam ao atendimento alarmados por variações que seriam, em outro contexto cultural ou clínico, simplesmente humanas.
Winnicott tinha uma expressão que acho útil aqui: a capacidade de estar só. Uma das marcas de saúde psíquica, para ele, era justamente poder suportar a própria companhia, a própria quietude, sem transformar isso em urgência ou em fuga. O outono, com seu convite implícito ao recolhimento, pode ser treinamento para isso, se a pessoa tem o suporte e a linguagem para reconhecê-lo como tal.
A clínica que aprende com as estações é aquela que não aplica o mesmo template ao paciente de março e ao de outubro. Que pergunta: o que está diferente agora? Que está disposta a ouvir a resposta sem pressa de categorizar.
Estamos em outono. Há valor em desacelerar, inclusive aqui nesta coluna.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.