Existe uma lacuna na formação de psicólogos brasileiros que raramente aparece nos currículos de graduação, mas que se impõe com força toda vez que um profissional chega a um contexto de saúde indígena: o limite do que sabemos.

Não é uma lacuna pequena. É uma lacuna que diz respeito à epistemologia, ao tipo de conhecimento que a psicologia convencional produz e às populações para as quais esse conhecimento foi construído. A maior parte da teoria psicológica que circula nos cursos de psicologia no Brasil foi produzida na Europa e nos Estados Unidos, a partir de amostras específicas de populações ocidentais, escolarizadas, urbanas. Quando essa teoria encontra a realidade de um povo Yanomami, Guarani, Xavante, Munduruku, povos com cosmologias, estruturas de parentesco, concepções de saúde, doença e cuidado radicalmente distintas, o que acontece não é uma aplicação tranquila. É um confronto.

O que a psicologia indígena não é

Há um equívoco recorrente que vale nomear: a ideia de que saúde mental indígena é equivalente a saúde mental "normal" com "adaptações culturais". Como se bastasse traduzir o DSM-5 para a língua local e inserir alguns elementos da cultura para que o cuidado se tornasse adequado. Não é assim que funciona.

Para muitos povos indígenas, o que o psicólogo convencional chamaria de "sintoma" psiquiátrico pode ser compreendido como sinal de desequilíbrio na relação com o território, com os ancestrais, com os seres não humanos que habitam o cosmos. Tratar isso como psicopatologia, nos termos clássicos, não é apenas culturalmente insensível, é potencialmente violento. É uma nova forma do velho projeto colonialista de impor categorias externas a realidades que têm suas próprias lógicas de compreensão.

O que existe de construção legítima

Isso não significa que a psicologia não tem nada a oferecer. Significa que o que ela tem a oferecer precisa ser colocado em diálogo, não imposto. Há experiências relevantes, desenvolvidas com e por povos indígenas, não apenas sobre eles, de articulação entre psicologia e práticas de cuidado tradicionais. O Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, dentro do SUS, foi construído com a premissa de que a saúde indígena tem especificidades que demandam modelo próprio. Na prática, a implementação é desigual e frequentemente subfinanciada.

Há também uma geração crescente de psicólogos indígenas, formados nas universidades brasileiras, alguns através de cotas, outros por caminhos mais longos, que está construindo uma psicologia que parte de dentro, de suas próprias comunidades e epistemologias. É esse movimento que deveria receber mais atenção, mais financiamento de pesquisa, mais espaço nas revistas científicas e nos portais do campo.

O que este portal pode fazer

O Psicologia em Pauta não tem respostas prontas para a questão indígena na psicologia. Tem perguntas que considera urgentes. Uma delas é: como formar psicólogos que saibam operar nos limites do próprio conhecimento, sem paralisar diante deles? Outra é: como construir, com povos indígenas, e não para eles, formas de cuidado em saúde mental que respeitem a integralidade das cosmovisões dessas populações?

Essas perguntas não têm respostas em abril. Têm, isso sim, a urgência de quem sabe que a omissão também é uma forma de resposta.

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