Tem algo de irônico no fato de que o Dia Mundial do Sono, comemorado em torno do dia 13 de março, costume gerar um volume imenso de conteúdo sobre higiene do sono. Desligue as telas. Mantenha a temperatura do quarto entre 18 e 21 graus. Evite cafeína após as 14h. Não use o celular na cama. São recomendações razoáveis, ancoradas em boa literatura, e completamente inacessíveis para uma fatia significativa da população brasileira.
Quero falar sobre essa fatia.
Não é que a higiene do sono seja errada. É que ela pressupõe condições de vida que nem todo mundo tem. Pressupõe que você controla seus próprios horários. Que você tem um quarto. Que você não divide a cama com três filhos em um espaço pequeno. Que o trânsito não determinou que você acorde às 4h30 para chegar ao trabalho às 7h. Que o seu trabalho não é noturno por não ter opção. Que a ansiedade que te mantém acordado não é sobre se haverá comida amanhã.
O sono como marcador de desigualdade
A privação de sono crônica é mais prevalente em populações de baixa renda, trabalhadores de turno noturno, cuidadores informais, moradores de periferias urbanas com alto índice de violência, onde o sono é interrompido não apenas por preocupações, mas por barulho, medo e insegurança física. Isso está bem documentado na literatura internacional, e há indícios de que o Brasil não é exceção, embora nossa pesquisa sobre o tema ainda seja menos robusta do que precisaria ser.
O problema é que a narrativa dominante sobre sono trata a privação como problema de hábito individual, quando ela é frequentemente consequência de estrutura social. Um trabalhador que faz dois turnos para pagar aluguel não tem problema de higiene do sono, tem problema de trabalho precário. Uma mãe solo que cuida de filho com necessidade especial à noite não precisa de dicas de meditação, precisa de rede de suporte.
O que o psicólogo clínico pode fazer
Dentro do consultório, há espaço para trabalho real com o sono. Protocolos de TCC para insônia estão entre as intervenções com melhor respaldo empírico para casos de insônia primária, isso é consistente na literatura e vale dizer com clareza. A terapia pode ajudar a identificar padrões cognitivos que perpetuam a dificuldade de dormir: a ruminação noturna, a ansiedade de desempenho em torno do sono, os comportamentos compensatórios que terminam agravando o problema.
Mas antes de ir para protocolo, o clínico precisa fazer a pergunta que a infografia do Dia do Sono não faz: o que, especificamente, está tirando o sono desta pessoa? A resposta pode ser cognitiva, pode ser comportamental, pode ser relacional, ou pode ser material, estrutural, social. Saber distinguir é parte do trabalho.
Na saúde pública, a integração entre saúde mental e atenção básica ainda patina justamente nesses casos. O paciente que chega ao posto com queixa de insônia muitas vezes recebe prescrição de benzodiazepínico e vai embora. A origem do problema, trabalho, violência, cuidado, pobreza, não é tocada porque não há tempo, não há recurso, não há protocolo.
O que quero que este portal faça
Quando o Psicologia em Pauta publica sobre sono, quero que publique a versão inteira do problema. Com os dados que existem, com os que faltam, com a distinção entre o que a clínica resolve e o que é da ordem da política. Com a honestidade de dizer: esta recomendação serve para algumas pessoas em algumas condições, não para todas.
O Dia Mundial do Sono vai embora em dois dias. O sono, e a falta dele, fica o ano inteiro.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.