O Dia Mundial da Saúde, celebrado em 7 de abril, sempre me provoca uma ambivalência que já não tento disfarçar. Por um lado, é uma data importante, uma oportunidade de colocar saúde na agenda pública em escala global, inclusive saúde mental, que ainda luta por reconhecimento equivalente à saúde física. Por outro, há algo incômodo na forma como o campo se comporta nessa data: campanhas bonitas, infográficos, posts de clínicas privadas falando em "acolhimento", como se o acesso à saúde mental fosse questão de estética comunicacional.
Não é.
O acesso à saúde mental no Brasil é questão de política pública, de financiamento, de distribuição geográfica de profissionais, de integração entre serviços, de combate ao estigma, e de reconhecer honestamente onde o sistema falha, sem usar isso como argumento para destruir o que foi construído.
O que o SUS fez e o que ainda não conseguiu
A Rede de Atenção Psicossocial, a RAPS, é uma das políticas de saúde mental mais ambiciosas que o Brasil já tentou construir. Os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, foram concebidos como serviços comunitários de saúde mental territorialmente distribuídos, em alternativa à internação psiquiátrica. A ideia, alinhada com o movimento antimanicomial que ganhou força no Brasil a partir dos anos 1980, era de que o cuidado em saúde mental devia ser feito na comunidade, no território, perto da vida das pessoas, não em instituições fechadas e frequentemente violadoras.
A ideia era certa. A implementação foi desigual, insuficientemente financiada e politicamente instável. Há CAPS que funcionam com excelência e servem de referência. Há CAPS que funcionam com equipe mínima, sem estrutura, sem supervisão clínica adequada. Essa desigualdade de implementação não invalida o modelo, mas precisa ser dita sem eufemismo.
O que falta, em larga medida, é financiamento estável e priorização política consistente. Saúde mental compete por orçamento com outras demandas urgentíssimas do sistema de saúde, e historicamente perde essa disputa. O resultado é um sistema que cobre formalmente muito mais do que consegue entregar na prática.
O que o mercado privado pode e não pode fazer
Do outro lado, há um mercado privado de saúde mental que cresceu de forma expressiva nos últimos anos, acelerado pela pandemia, pelo aumento das queixas de ansiedade e depressão, e pela proliferação de plataformas digitais. Parte desse crescimento é bem-vindo. Mais psicólogos atendendo, mais acesso para quem pode pagar, isso é positivo.
O problema começa quando o mercado confunde o que vende com o que o campo precisa. Quando "democratizar o acesso" vira slogan para planos de atendimento com quinze minutos por sessão. Quando o clínico é transformado em prestador de serviço avaliado pela satisfação imediata do cliente, e não pelo cuidado de longo prazo que a clínica muitas vezes exige. Quando a lógica do produto coloniza o espaço do tratamento.
Saúde mental não é produto. Mas também não é caridade. É um serviço que exige profissionais bem formados, remunerados adequadamente, com condições de trabalho que não os levem ao esgotamento. O psicólogo que atende vinte e cinco pacientes por semana em plano de saúde com reembolso insatisfatório não é herói, é vítima de um sistema que não consegue se decidir entre o que financia e o que valoriza.
O que este portal quer dizer ao campo, em abril
Que saúde mental é direito. Que o SUS, com todos os seus problemas, é a única estrutura capaz de garantir esse direito em escala. Que o mercado privado pode ser aliado, mas não substituto. E que o Dia Mundial da Saúde serve para lembrar que a conversa sobre acesso, financiamento e modelo de cuidado não pode ficar restrita a gestores e acadêmicos: ela precisa passar pelos consultórios, pelos CAPS, pelas faculdades de psicologia, pelos pacientes.
Este portal é um ponto dessa conversa.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.