Toda semana aparece um novo produto que promete "democratizar o acesso à saúde mental". Às vezes é um aplicativo de meditação guiada. Às vezes é um chatbot que faz triagem emocional. Às vezes é uma plataforma que conecta psicólogos a pacientes via videochamada, com agendamento automatizado e prontuário integrado. O mercado de saúde mental digital cresce, e isso é um fato que a psicologia brasileira precisa encarar, não como ameaça nem como solução mágica, mas como realidade que exige posicionamento intelectual sério.

Digo isso como psicólogo clínico com vinte anos de consultório e como alguém que, nos últimos anos, investiu em tecnologia para saúde mental. Tenho, portanto, um viés declarado. E exatamente por isso me esforcei para manter distância crítica do campo que ajudei a construir.

O que a tecnologia pode e o que não pode

Há coisas que a tecnologia faz bem na saúde mental. Rastreamento de humor ao longo do tempo. Lembretes de medicação. Psicoeducação acessível em linguagem simples. Redução de barreiras geográficas para atendimento por teleconferência. Triagem inicial em contextos de alta demanda. Para um país de dimensões continentais e distribuição radicalmente desigual de psicólogos, concentrados no eixo Sul-Sudeste, nas capitais, nos consultórios de classe média, essas funcionalidades não são luxo: são necessidade.

O que a tecnologia não faz, pelo menos nenhuma disponível hoje, é o que acontece no encontro clínico. A microexpressão do rosto que muda quando um paciente fala do pai. O silêncio que o terapeuta experiente sabe não preencher. A regulação do sistema nervoso que ocorre, segundo se entende na literatura de apego, quando um ser humano se sente genuinamente escutado por outro ser humano. Isso não é misticismo, é fisiologia. E nenhum modelo de linguagem, por mais sofisticado que seja, produz isso.

O que o CFP fez e o que ainda falta

Em 2024, o Conselho Federal de Psicologia publicou a Resolução CFP 09/2024, que regulou o atendimento psicológico mediado por tecnologias digitais, o teleatendimento e as TDICs, tratando inclusive do uso de inteligência artificial com a exigência de responsabilidade profissional humana. Foi um passo necessário e, nos seus contornos gerais, razoável: afirma a autonomia e a responsabilidade do profissional sobre o que faz com o apoio dessas ferramentas, e sustenta que a relação psicológica não se delega a um sistema automatizado. O debate sobre como aplicar esses princípios na prática, no entanto, ainda está em aberto.

O que falta, em minha avaliação, é o equivalente de uma cultura de avaliação crítica dessas ferramentas. Nos Estados Unidos e na Europa, há iniciativas crescentes de revisão independente de aplicativos de saúde mental, análises que verificam se as promessas feitas aos usuários têm alguma base na literatura, se os dados de privacidade são tratados com responsabilidade, se os modelos foram treinados em populações representativas. No Brasil, essa cultura ainda é embrionária.

O que este portal quer dizer ao campo

Uma publicação de psicologia que não discute tecnologia em 2026 está olhando para o retrovisor. Uma publicação que discute tecnologia sem rigor está fazendo marketing disfarçado de jornalismo.

A proposta deste portal é diferente: levar tecnologia a sério como objeto de reflexão clínica e epistemológica. Isso significa perguntar, por exemplo: quando um aplicativo diz que usa "técnicas baseadas em evidências", de quais evidências, em quais populações, com quais medidas de desfecho? Significa perguntar: quem tem acesso a essas ferramentas e quem não tem, e o que isso reproduz em termos de desigualdade? Significa, também, reconhecer quando a tecnologia funciona, e celebrar isso sem constrangimento.

A clínica precisa da tecnologia. A tecnologia precisa da clínica. O que as duas ainda não fizeram o suficiente é conversar com honestidade. Esta cadeira está disponível para essa conversa.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.