Há algo de particular em escrever um balanço quando você está no meio do processo. Não é o balanço sereno de quem já tem perspectiva histórica, é o balanço de quem ainda está construindo e precisa parar um momento para perguntar: o que está acontecendo aqui?
O Psicologia em Pauta completou, neste mês de maio, três meses de publicação regular. Fevereiro, março, abril, e agora maio. Foram mais de cem peças publicadas, escritas por uma equipe de Scribas com formações, perspectivas e especialidades diferentes. Não vou fingir que sei avaliar tudo isso com objetividade, sou o fundador, e há um viés inevitável em quem olha para o próprio projeto. Mas vou tentar ser honesto sobre o que aprendi nesse período.
O que funcionou
A decisão de ter verticais especializadas, clínica, neurociência, psicanálise, mente e tecnologia, saúde, educação em psicologia, entre outras, foi acertada. A psicologia é um campo vasto demais para ser coberto por uma única voz ou um único olhar. O que emerge quando vozes diferentes cobrem o mesmo fenômeno a partir de lentes distintas é algo mais próximo da complexidade real do campo do que qualquer editorial unitário conseguiria produzir.
Também funcionou a decisão de não importar o modelo de conteúdo de portais de saúde mental que funcionam como autoajuda digital. A tentação é real, esse tipo de conteúdo performa bem nas métricas. Mas não é o que este portal quer ser. Queremos leitores que ficam porque pensam, não leitores que chegam porque precisam de uma dica rápida para dormir melhor.
O que surpreendeu
Surpreendeu a quantidade de psicólogos que nos escreveram para dizer que sentiram falta, em sua formação, de exatamente o tipo de reflexão que publicamos. Peças que colocam a clínica em diálogo com o contexto social. Que não separam o paciente do território que habita. Que falam de raça, de desigualdade, de saúde pública sem tratar esses temas como apêndice do real interesse clínico.
Isso me diz algo sobre a formação em psicologia no Brasil, sobre o que os currículos ensinam e o que deixam de lado. Não é um elogio ao portal; é um dado sobre o campo.
Surpreendeu também a dificuldade de escrever sobre alguns temas sem parecer que se está entrando numa guerra política. Saúde mental indígena, racismo e clínica, reforma psiquiátrica, temas que deveriam ser discussão técnica e ética viraram, no debate público, marcadores de identidade política. Isso dificulta o pensamento limpo. Este portal tenta não capitular a essa lógica, mas seria ingênuo fingir que é fácil.
O que ainda não sabemos
Não sabemos ainda quem nos lê de fato. Métricas de tráfego dizem alguma coisa, mas não dizem se estamos alcançando os psicólogos em início de carreira que trabalham no CAPS do interior. Se estamos sendo lidos por estudantes de psicologia de universidades públicas fora do eixo Sul-Sudeste. Se chegamos a profissionais de saúde de outras áreas, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, que trabalham com saúde mental sem formação específica.
Não sabemos, ainda, qual é o efeito real de um portal como este no debate do campo. Há razões para ser humilde: a psicologia brasileira tem revistas científicas, associações profissionais, grupos de pesquisa robustos. Um portal editorial não substitui nenhum desses espaços, pode, no melhor dos casos, funcionar como ponte entre eles e o público que não habita o espaço acadêmico.
E não sabemos, honestamente, se estamos fazendo as perguntas certas. Essa é a mais incômoda das ignorâncias, a que não se deixa resolver por mais dados, porque é questão de perspectiva. Quais vozes ainda estão faltando aqui? Quais regiões do país ainda não têm representação? Quais experiências clínicas ainda não acharam espaço nesta publicação?
São perguntas que tento não deixar adormecer. Elas são, em certo sentido, o motor do que vem a seguir.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.