Maio Amarelo existe há mais de uma década. As campanhas se sucedem, os números de mortes no trânsito brasileiro permanecem entre os mais altos do mundo, e a pergunta que pouco se faz é: por que a informação sobre risco não muda o comportamento?

A resposta não está na falta de campanhas. Está na psicologia de quem dirige.

O viés do otimismo e o trânsito

Existe uma tendência amplamente documentada na psicologia cognitiva de avaliarmos os riscos que nos afetam como menores do que os riscos que afetam outras pessoas. Não por desonestidade, por arquitetura mental. Achamos que somos melhores motoristas do que a média. Achamos que nossa atenção dividida pelo celular é menos perigosa do que a de quem está no carro ao lado. Achamos que o acidente "é coisa de quem não sabe dirigir".

Esse viés de otimismo não é um defeito de caráter. É uma tendência cognitiva que afeta a maior parte das pessoas, em maior ou menor grau. O problema é que no trânsito, ambiente de alta velocidade, múltiplos agentes, consequências irreversíveis, ele tem custo imediato e severo.

A pessoa que ultrapassa o semáforo vermelho às três da manhã "porque não tem ninguém" está fazendo um cálculo probabilístico. O problema é que o cálculo está errado, e o erro é sistemático.

Por que campanhas de conscientização têm efeito limitado

Informar pessoas sobre os riscos do comportamento perigoso no trânsito funciona, até certo ponto. O problema é que o viés de otimismo opera justamente sobre a informação recebida: "sim, acidentes são graves, mas com os outros, não comigo".

A psicologia comportamental e a economia comportamental oferecem uma alternativa: em vez de tentar mudar crenças sobre o risco, mudar o ambiente de decisão. Nudges estruturais que tornam o comportamento seguro o caminho natural, radares visíveis antes da curva, lombadas estrategicamente posicionadas, design de vias que induz velocidade menor.

No Brasil, o debate sobre infraestrutura de trânsito seguro frequentemente fica submerso na narrativa de que o problema é o "imprudente". Essa narrativa não é falsa, imprudência existe. Mas ela transfere toda a responsabilidade para o comportamento individual e ignora que o ambiente condiciona comportamentos de formas que a vontade individual raramente supera.

Trânsito, desigualdade e o Brasil que pedala sem ciclovia

Há uma dimensão que as campanhas de Maio Amarelo raramente enfrentam com honestidade: os acidentes de trânsito no Brasil não atingem todos igualmente. Pedestres, ciclistas e motociclistas, predominantemente trabalhadores de baixa renda, concentram a maior parte das vítimas fatais.

Isso não é coincidência. É resultado de uma política de mobilidade que historicamente privilegiou o automóvel particular e negligenciou a infraestrutura para os modos mais vulneráveis. Um pedestre que atravessa uma rodovia federal sem passarela não está fazendo uma escolha de risco, está usando a única via disponível.

A psicologia pode ajudar a entender por que as pessoas subestimam riscos e como projetar ambientes que facilitem comportamentos mais seguros. Mas sem investimento em infraestrutura adequada, sem políticas de trânsito que reconheçam a hierarquia de vulnerabilidade, o comportamento individual não tem para onde ir.

Maio Amarelo, em 2026, merece essa conversa. Não apenas sobre quem dirige mal, mas sobre o sistema que torna dirigir mal a escolha mais fácil.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.