Dezoito de maio veio e foi. O dia da Luta Antimanicomial marcou mais uma vez o compromisso, ainda inacabado, ainda disputado, com um modelo de cuidado em saúde mental que não seja baseado no confinamento. Mas há uma pergunta que a data mobiliza e que raramente recebe resposta comportamental: o que exatamente o manicômio fazia com as pessoas além de contê-las?
A resposta, da perspectiva da análise do comportamento, é perturbadora e importante.
Ambientes que extinguem a agência
Um ambiente institucional total, nos termos de Erving Goffman, cujo trabalho sobre instituições totais continua sendo referência, opera através da supressão sistemática da agência individual. Horários impostos, roupas uniformes, ausência de propriedade pessoal, decisões tomadas por outros sobre o próprio corpo. Essa supressão não é apenas humilhante. É behavioralmente destrutiva.
A psicologia do comportamento documentou, ao longo de décadas, o que acontece quando os comportamentos de uma pessoa deixam de ter consequências: a extinção da iniciativa. Quando agir não produz nenhum efeito sobre o ambiente, quando as respostas do entorno são independentes do que a pessoa faz, o comportamento de iniciativa gradualmente desaparece. É o que pesquisadores chamam, em linguagem técnica, de desamparo aprendido.
A ironia trágica do modelo manicomial é que ele produzia, com frequência, exatamente os comportamentos que usava para justificar a internação prolongada: passividade, dependência, perda de habilidades básicas de vida. O ambiente criava aquilo que dizia apenas conter.
O que a desinstitucionalização precisa enfrentar
A Reforma Psiquiátrica brasileira, com toda a sua importância histórica e seus avanços reais, enfrenta um desafio comportamental que às vezes é subestimado: pessoas que passaram anos ou décadas em instituições totais não recuperam automaticamente a capacidade de agir no mundo quando são transferidas para um ambiente comunitário.
Habilidades de vida cotidiana, preparar uma refeição, gerenciar dinheiro, estabelecer rotinas, tomar iniciativas simples, precisam ser reaprendidas. Não porque a pessoa "esqueceu" no sentido cognitivo simples, mas porque comportamentos que nunca foram reforçados, ou que foram sistematicamente extinguidos, precisam ser reconstruídos a partir de bases muito primárias.
Os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, têm entre suas funções exatamente essa reabilitação. Mas os CAPS operam com recursos insuficientes, territórios sobrecarregados e, muitas vezes, sem equipes com formação específica em análise do comportamento aplicada à reabilitação psicossocial.
O que o comportamento exige da comunidade
Há algo que a desinstitucionalização bem-sucedida exige que vai além da estrutura de serviços: a existência de um ambiente comunitário que reforce ativamente a participação social das pessoas em processo de reabilitação.
Isso é mais difícil do que parece. O estigma associado ao transtorno mental, que no Brasil tem raízes históricas, raciais e de classe muito específicas, produz ambientes que frequentemente não reforçam a participação. Pessoas que saem de internações longas encontram vizinhanças que as ignoram ou evitam, mercados de trabalho que as excluem, famílias que não sabem como incluí-las.
Um programa comportamental de reabilitação dentro de um CAPS não sobrevive sem suporte comunitário externo. A comunidade é o ambiente onde o comportamento precisa funcionar. Se ela não oferece oportunidades de reforço, o trabalho dentro da unidade de saúde perde boa parte de seu efeito.
Maio Antimanicomial, em 2026, é uma data de luta política, e deve continuar sendo. Mas é também uma convocação para pensar nos ambientes que seguimos construindo, dentro e fora das instituições, e em que tipo de comportamento esses ambientes ensinam às pessoas que dependem deles.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.