Há uma cena que se repete nos cursos de psicologia do Brasil com frequência suficiente para ser considerada estrutural: o estudante que domina a clínica, que escuta bem, que tolera o não saber, que tem presença e cuidado, mas que vai mal nas provas. E o estudante inverso, que decora a teoria com eficiência, acerta questões de múltipla escolha com desenvoltura, mas que em supervisão não consegue sustentar cinco minutos de silêncio com o paciente sem ansiosamente preencher o espaço.
A avaliação, nesse contexto, não está medindo o que diz medir. Está medindo outra coisa, memória de curto prazo, familiaridade com o formato de prova, velocidade de processamento textual. Competências que têm alguma relação com a prática clínica, mas não exatamente a mais relevante.
O problema não é a teoria, é o instrumento
Quero ser precisa aqui para não parecer que estou fazendo uma defesa do anti-intelectualismo que às vezes aparece na formação em psicologia: a ideia de que "sentir" substitui "saber", de que a intuição dispensa o rigor. Não é isso.
O domínio teórico importa. Um psicólogo que não entende os fundamentos do desenvolvimento infantil vai perder dados clínicos importantes. Um que desconhece psicopatologia não consegue distinguir o que exige encaminhamento do que pode ser trabalhado na clínica. A teoria não é ornamento, é estrutura.
O que questiono é o instrumento de avaliação dessa teoria. A prova de múltipla escolha, ou mesmo a discursiva nos moldes tradicionais, mede, principalmente, a capacidade de reproduzir informação em condições de pressão temporal. Ela não mede a capacidade de usar essa informação diante de um paciente real, com sua ambiguidade e sua recusa a se encaixar nas categorias.
O que a literatura sobre avaliação autêntica oferece
O campo da pedagogia das profissões de saúde tem desenvolvido, nas últimas décadas, o conceito de avaliação autêntica: formas de avaliação que replicam, na medida do possível, as condições e complexidades da prática real. No ensino médico, isso se traduz em simulações clínicas, em OSCEs (exames clínicos estruturados com pacientes padronizados), em supervisão direta avaliada. Na psicologia brasileira, esses formatos ainda são raros, embora existam iniciativas em alguns cursos que merecem atenção.
A supervisão clínica, quando bem conduzida, é ela mesma uma forma de avaliação autêntica. O supervisor observa o supervisionado em situação real (ou quase real), nota o que aparece e o que não aparece, e devolve ao estudante uma compreensão da própria prática. Esse modelo é potencialmente muito mais formador do que qualquer prova, mas exige tempo, formação especializada do supervisor, e estrutura institucional que o suporte.
Abril como momento de revisão curricular
Abril é, em muitas instituições, o mês das avaliações parciais do primeiro semestre. O momento em que professores preparam provas e estudantes preparam resumos. E é um bom momento, justamente por isso, para perguntar: o que estamos medindo de fato?
Não proponho eliminar a avaliação formal, ela tem funções reais no processo de formação. Proponho diversificar os instrumentos. Estudos de caso escritos, onde o estudante demonstra raciocínio clínico, não apenas memorização. Autoavaliação estruturada sobre o próprio processo de aprendizagem. Avaliação por pares em contextos de supervisão simulada. Portfólio reflexivo que acompanha o desenvolvimento ao longo do semestre.
Nenhum desses instrumentos é novo. Todos existem em cursos ao redor do mundo, inclusive em alguns brasileiros. O que falta, frequentemente, é a vontade institucional de rever uma estrutura de avaliação que é mais fácil de administrar do que de defender pedagogicamente.
O estagiário que sente que algo está fora de lugar tem, muitas vezes, mais clareza pedagógica do que parece. Vale ouvi-lo.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.