O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, em dois de abril, tem crescido em visibilidade nos últimos anos. Campanhas se multiplicam, iluminação azul aparece em prédios públicos, textos circulam nas redes. E, progressivamente, pessoas autistas têm tomado a palavra nesse debate, exigindo que conscientização não seja confundida com condescendência, e que visibilidade não substitua acesso real a serviços de qualidade.

Nesse contexto, uma pergunta que raramente aparece nas discussões sobre o Dia do Autismo é: o que os cursos de psicologia estão ensinando sobre autismo? Não sobre o transtorno em si, os conteúdos de psicopatologia geralmente cobrem isso, com qualidade variável. Mas sobre como atender pessoas autistas, como adaptar a escuta clínica, como compreender formas de comunicação que diferem do padrão neurotipical que estrutura a maior parte da formação.

A lacuna entre diagnóstico e clínica

Há uma assimetria marcante na formação em psicologia em relação ao autismo. O estudante aprende a identificar, a partir dos critérios diagnósticos do DSM-5 e do CID-11, as características que definem o transtorno do espectro autista. Aprende sobre teorias do desenvolvimento, sobre marcos que se desviam do esperado, sobre os instrumentos de rastreamento disponíveis.

O que aprende menos, e às vezes não aprende, é o que vem depois do diagnóstico. Como se faz psicoterapia com uma criança autista que não usa a fala como meio primário de comunicação? Como se adapta o enquadre clínico para um adolescente autista que tem necessidades sensoriais específicas? Como se trabalha com uma pessoa autista adulta que chegou ao consultório com décadas de mascaramento e exaustão social não nomeada?

Essas perguntas são clínicas antes de serem teóricas. E elas exigem formação prática, não apenas teórica.

O que as diretrizes curriculares não especificam

As Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de psicologia são, em geral, adequadas no que dizem, e lacunosas no que não dizem. Elas estabelecem competências amplas relacionadas à atuação clínica e ao desenvolvimento humano, mas não especificam populações ou contextos que exigem adaptações. Isso é, em parte, deliberado: diretrizes muito específicas enrijeceriam currículos que precisam de flexibilidade.

O problema é que, na ausência de especificação, o que tende a acontecer é que as maiorias dominam o currículo. Clínica com adultos neurotípicos de classe média urbana, o paciente implícito de grande parte da teoria psicológica clássica, ocupa o centro, e as populações que exigem adaptações ficam nas margens, quando aparecem.

O resultado é que muitos psicólogos se formam sem ter atendido, sequer uma vez, uma pessoa autista em estágio supervisionado. E chegam ao mercado de trabalho despreparados para uma demanda que só cresce.

O que experiências curriculares inovadoras têm mostrado

Alguns cursos têm tentado preencher essa lacuna de formas interessantes. Parcerias com CAPS, com centros de referência em deficiência, com associações de famílias de pessoas autistas têm permitido que estagiários tenham contato real com essa população, com supervisão especializada. Em outros casos, professores com formação específica em clínica com autismo têm desenvolvido disciplinas optativas que tratam das adaptações necessárias ao enquadre clínico.

Essas iniciativas são importantes, e ainda são exceção. O que precisariam se tornar é regra, ou ao menos base mínima de qualquer formação que se pretenda responsável com a diversidade das pessoas que vão procurar psicólogos.

Abril, com seu chamado à conscientização, é um bom momento para que as coordenações de curso façam uma pergunta honesta: o que nossos egressos sabem, e sabem fazer, quando uma pessoa autista bate à porta do consultório?

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.