Existe algo paradoxal em ser professor de psicologia e não conseguir identificar os próprios sinais de esgotamento. Não porque os professores de psicologia sejam mais cegos que outros, mas porque o paradoxo revela algo sobre a estrutura da profissão docente no campo psi: ensinamos sobre saúde mental enquanto operamos num sistema que sistematicamente compromete a nossa.
Março, no calendário acadêmico brasileiro, é o mês em que o início de ano letivo deixa de ser início e vira rotina plena. As turmas estão formadas, os planos de ensino entregues, as supervisões rodando. E é exatamente aqui, quando o extraordinário do começo cedeu lugar ao ordinário do funcionamento, que o esgotamento começa a aparecer com mais clareza.
O que o campo sabe sobre burnout docente
A literatura sobre burnout em professores do ensino superior é substancial, embora no Brasil ainda seja menos desenvolvida do que em contextos de educação básica. O que os estudos tendem a mostrar, com as devidas variações de contexto, é que professores universitários são vulneráveis a formas específicas de esgotamento ligadas à multiplicidade de papéis: ensinar, pesquisar, supervisionar, participar de comitês, produzir para avaliações institucionais.
No caso dos docentes de psicologia, essa multiplicidade tem uma camada a mais: muitos mantêm prática clínica paralela, seja em clínicas-escola, seja em consultórios. O mesmo profissional que supervisionou um estagiário com um caso grave de tarde atende sua própria agenda clínica à noite. A fronteira entre o que sustenta o outro e o que sustenta a si mesmo é, com frequência, frágil.
O silêncio como norma institucional
O que me parece mais grave no burnout docente em psicologia não é sua existência, ele existe em todas as áreas, mas o silêncio que o envolve neste campo específico. Há uma espécie de expectativa implícita de que o professor de psicologia deveria ser imune, ou ao menos mais resiliente, à própria matéria que ensina.
Essa expectativa tem raízes compreensíveis: a imagem do profissional de saúde mental equilibrado, capaz de sustentar o sofrimento do outro. Mas aplicada ao professor, ela produz uma norma de silêncio que é, ela mesma, um fator de risco. O docente que não pode nomear o próprio esgotamento, porque nomear seria contradizer a competência que representa, está num lugar mais vulnerável do que quem pode dizer claramente que está no limite.
O que os estagiários aprendem, vendo supervisores exaustos que nunca nomeiam o cansaço? Aprendem, antes de qualquer conteúdo, que na psicologia se trabalha assim: até o limite, sem reclamar.
Março como ponto de inflexão
A escolha de escrever sobre isso em março não é aleatória. Em fevereiro, o início traz energia de recomeço. Em abril, o semestre já está consolidado e há uma acomodação. Março é o mês de transição, o momento em que a energia de fevereiro já se foi e abril ainda não chegou, e em que o peso acumulado começa a pesar de forma mais perceptível.
É também o mês em que o burnout docente ainda pode ser prevenido, se houver estrutura institucional para isso. Ou ao menos nomeado, se não houver.
O que uma instituição poderia fazer
Não tenho ilusões sobre mudanças estruturais rápidas. Mas algumas coisas são possíveis e dependem mais de vontade pedagógica do que de recursos: grupos de intervisão para supervisores, onde o próprio processo de supervisionar possa ser discutido; políticas explícitas de carga horária que reconheçam o peso da supervisão clínica como diferente de outras atividades acadêmicas; e, mais simples de tudo, a possibilidade de um professor de psicologia dizer "estou exausto" sem que isso seja interpretado como inadequação profissional.
Essas pequenas aberturas não resolvem o problema, mas criam condições para que ele não precise ser carregado em silêncio. E quem ensina psicologia sabe, melhor do que ninguém, o que o silêncio faz com aquilo que precisaria ser dito.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.