Quando Anísio Teixeira voltou dos Estados Unidos com as ideias de John Dewey debaixo do braço e tentou reformar a escola pública brasileira, encontrou resistência de todos os lados. O que me interessa nessa história não é a derrota política que viria depois, mas algo que qualquer professor reconhece: o esgotamento de quem leva a sério o ofício de ensinar não é invenção da era do burnout. Era assim no início do século passado, é assim agora. O olhar de quem chega ao meio do ano já tendo dado tudo que tinha não mudou.

Junho é o mês em que o calendário escolar brasileiro atinge seu ponto de maior tensão interna. O primeiro semestre está chegando ao fim, as férias de julho estão à vista mas ainda não chegaram, e o peso acumulado de meses de trabalho intenso, metas, avaliações e conflitos cotidianos já se instalou no corpo e na mente de quem ensina e de quem aprende. É o momento em que a evasão escolar costuma crescer, em que o absenteísmo docente aumenta, em que as salas ficam mais agitadas ou mais silenciosas do que o habitual. A psicologia escolar e educacional conhece bem esse fenômeno, ainda que a escola raramente o nomeie com clareza.

O que é o cansaço institucional

Há uma diferença importante entre o cansaço individual e o que a literatura da psicologia organizacional e educacional costuma chamar de esgotamento coletivo ou burnout institucional. O primeiro é pessoal, ligado à história, à saúde e às circunstâncias de cada pessoa. O segundo é estrutural: emerge da organização do trabalho, das condições materiais, das demandas que excedem cronicamente os recursos disponíveis.

Na escola pública brasileira, os dois fenômenos coexistem e se retroalimentam. O professor que chega ao mês de junho carrega não apenas a fadiga do seu próprio corpo, mas também o peso de uma estrutura que tende a não reconhecer seus limites. Turmas superlotadas, burocracia crescente, ausência de suporte psicológico institucional, salários que não acompanham o custo de vida: esses são dados que o Conselho Federal de Psicologia e entidades ligadas à educação têm documentado ao longo dos anos, sem que a situação se resolva de forma consistente.

O que a psicologia pode oferecer aqui não é uma solução individual para um problema estrutural. Mas pode oferecer uma nomeação honesta do fenômeno e algumas ferramentas para atravessá-lo com mais consciência.

O estudante também está exausto

Seria um erro olhar apenas para o professor. O estudante da escola pública brasileira chega ao meio do ano com sua própria carga. Dependendo do contexto, essa carga inclui trabalho informal para complementar a renda familiar, responsabilidades domésticas desproporcionais para a idade, insegurança alimentar, exposição à violência no entorno da escola e a ausência de espaços seguros para falar sobre tudo isso dentro da instituição.

A psicologia do desenvolvimento, desde Vygotsky até abordagens mais contemporâneas, insiste que aprendizagem não acontece no vácuo: ela depende de condições afetivas, sociais e materiais. Quando essas condições estão comprometidas, a cognição sofre. A desmotivação que os professores observam em junho, o desengajamento, a sensação de que os estudantes "não estão mais lá", tem frequentemente raízes que vão muito além da falta de interesse pelo conteúdo.

A evasão escolar que cresce nesse período do ano raramente é uma decisão fria e calculada. É, na maior parte dos casos, o resultado de um acúmulo: de faltas que viraram padrão, de constrangimentos não elaborados, de uma relação com a escola que foi se desgastando sem que ninguém intervisse a tempo. A psicologia educacional tem contribuído para mapear esses processos, ainda que a implementação de estratégias de acolhimento e escuta nas escolas públicas continue sendo desigual e insuficiente.

O que a psicologia escolar faz com isso

A presença do psicólogo na escola pública brasileira é ainda muito aquém do necessário. A lei que assegura a inserção desses profissionais nas redes de ensino existe, a 13.935, de 2019, que prevê serviços de psicologia e de serviço social na educação básica pública, mas sua implementação avançou de forma fragmentada, com diferenças enormes entre estados e municípios. Quando presente, o psicólogo escolar enfrenta um dilema clássico: é chamado para atender casos individuais, mas o problema que está diante dele é coletivo.

O meio do ano é um momento especialmente produtivo para intervenções que não se limitem ao consultório ou à sala de orientação. Grupos de escuta com professores, rodas de conversa com estudantes sobre o próprio processo de aprender, ações que ajudem a nomear o cansaço sem patologizá-lo: essas estratégias, quando possíveis, tendem a produzir um efeito de alívio que não é apenas subjetivo. Quando as pessoas conseguem nomear o que estão sentindo, algo muda na relação delas com essa experiência.

Paulo Freire, que pensou a escola como lugar de humanização e não apenas de transmissão de conteúdo, insistia que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Junho é um bom momento para ler o mundo da escola com honestidade: o que está pesando, o que está sendo ignorado, o que poderia ser diferente no segundo semestre.

O que fazer com o que resta

Não existe fórmula. O que existe são escolhas sobre como usar o que sobrou de energia e tempo antes das férias de julho. Para o professor: nomear o cansaço para si mesmo antes de tentar nomear para os outros. Resistir à pressão de performar entusiasmo que não existe. Pedir ajuda quando possível, mesmo que o ambiente não facilite isso.

Para o estudante, especialmente o mais vulnerável: encontrar ao menos um adulto na escola que funcione como referência, alguém que perceba sua ausência antes que ela se torne definitiva. A literatura sobre fatores protetores na adolescência é razoavelmente consistente nesse ponto: um vínculo significativo com um adulto confiável pode fazer diferença mesmo em contextos muito adversos.

Para o psicólogo escolar, quando presente: junho não é mês de grandes projetos. É mês de escuta. De atenção ao que está fadigado. De identificar quem está prestes a desaparecer antes que desapareça.

O calendário vai virar. Julho vai chegar. O segundo semestre vai começar. Mas o cansaço que não foi reconhecido em junho não desaparece nas férias: ele reaparece em agosto, um pouco mais sedimentado, um pouco mais difícil de mover. Por isso vale a pena pará-lo agora, olhar para ele de frente, dar-lhe o nome que merece.

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