Todo estudante de psicologia aprende, em algum momento da graduação, sobre a Luta Antimanicomial. Aprende sobre Basaglia, sobre a experiência italiana, sobre o movimento brasileiro que culminou na Lei 10.216 de 2001. Aprende sobre CAPS, sobre RAPS, sobre os princípios da desinstitucionalização. Aprende, em resumo, a história de uma transformação que ainda está em curso.

O que aprende com menos clareza, e que o Dia da Luta Antimanicomial em dezoito de maio convida a examinar, é como atuar nesse campo. Como trabalhar num CAPS de verdade, com suas contradições, seus recursos insuficientes, suas tensões entre modelo manicomial e modelo psicossocial que ainda coexistem no interior dos serviços. Como fazer clínica numa RAPS fragmentada, onde o projeto terapêutico singular é filosofia e a realidade é fila de espera.

A lacuna entre princípio e prática antimanicomial

Conheço psicólogos formados com discurso antimanicomial impecável que chegam ao primeiro emprego num CAPS e não sabem conduzir um projeto terapêutico singular. Que conhecem os princípios da reabilitação psicossocial mas não sabem o que fazer quando um usuário em sofrimento agudo chega à porta. Que foram ensinados a criticar o modelo biomédico mas não sabem trabalhar em equipe multiprofissional com um psiquiatra que tem uma visão diferente.

Isso não é falha individual dos estudantes. É uma lacuna pedagógica. Formação teórica sobre reforma psiquiátrica sem formação prática no campo da saúde mental pública produz, no melhor dos casos, profissionais bem-intencionados que precisam aprender o trabalho real na prática, e, no pior, profissionais que reproduzem, sem perceber, lógicas que criticam no discurso.

O que estágio em serviço público poderia oferecer

A exigência de estágio em serviços públicos de saúde, que existe em alguns cursos e não em outros, dependendo da organização curricular, é um dos mecanismos mais potentes para fechar essa lacuna. O estagiário que passou tempo num CAPS, num CAPS-AD, numa enfermaria de saúde mental hospitalar pública, aprende coisas que nenhuma aula sobre reforma psiquiátrica consegue ensinar.

Aprende que a desinstitucionalização é processo, não evento, que acontece (ou não acontece) em cada encontro clínico, em cada decisão sobre internação, em cada projeto terapêutico construído ou abandonado. Aprende que as contradições do campo não são falhas do sistema que vai ser corrigido: são o campo, e trabalhar nele exige tolerância a essa ambiguidade.

As diretrizes curriculares nacionais para os cursos de psicologia reconhecem a importância da formação para o SUS. Mas a implementação varia enormemente entre instituições, e cursos privados, que formam a maioria dos psicólogos brasileiros, nem sempre têm os convênios e as estruturas necessárias para garantir estágios de qualidade em serviços públicos.

Maio como memória ativa, não efeméride

O risco de datas como dezoito de maio é que se tornem rituais de memória sem consequência prática. O curso que faz um seminário sobre Luta Antimanicomial uma vez por ano mas não garante que seus egressos saibam trabalhar em serviços de saúde mental pública não está, de fato, honrando a memória que celebra.

Honrar seria diferente: rever os currículos para garantir contato real com o campo; incluir usuários e familiares como educadores nos próprios cursos; formar supervisores que tenham experiência efetiva em saúde mental pública, não apenas em clínica privada.

A Luta Antimanicomial não é história encerrada. É projeto em disputa, com avanços e retrocessos. E os psicólogos que vão trabalhar nesse campo merecem uma formação que os prepare para disputar junto.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.