Primeiro de maio passou, e com ele os textos sobre saúde mental no trabalho, sobre o adoecimento que o capitalismo produz, sobre o que significa trabalhar num sistema que frequentemente trata pessoas como recursos. A psicologia do trabalho tem muito a dizer sobre isso, e diz, com crescente sofisticação, em pesquisas, clínicas e políticas públicas.
O que raramente aparece nessa conversa é a própria formação em psicologia como ambiente de trabalho. Professores, supervisores, coordenadores de curso, funcionários das clínicas-escola, todos trabalham num sistema com suas próprias pressões, seus próprios dispositivos de produtividade, suas próprias formas de invisibilizar o adoecimento.
A ironia não é pequena: formamos psicólogos que vão trabalhar com saúde mental do trabalhador num contexto que frequentemente compromete a saúde mental de quem os forma.
O que o modelo de trabalho docente na psicologia produz
O professor de psicologia em instituição privada brasileira opera, em geral, num regime de trabalho horista: é pago por aula, não por hora de trabalho. Isso significa que preparação de aula, correção de trabalhos, orientação de estágios, reuniões pedagógicas, atualização profissional, tudo isso é feito fora do tempo remunerado.
Esse modelo não é exclusivo da psicologia. Mas tem consequências específicas nessa área. Um professor de psicologia que não tem tempo para se atualizar, que não consegue frequentar supervisão clínica própria, que está exausto demais para pensar sobre o que acontece na sala de aula, esse professor vai ensinar psicologia com menos qualidade. Não por falta de competência, mas por falta de condições.
O que os estudantes aprendem, observando esse modelo? Aprendem, antes de qualquer conteúdo, que trabalhar em psicologia é isso: se virar com o que tem, absorver as demandas sem reclamar, tratar o esgotamento como sinal de fraqueza ou inadequação.
A noção de trabalho real na formação clínica
A ergologia e a clínica da atividade, tradições de pesquisa sobre trabalho que têm representação importante no Brasil, distinguem entre trabalho prescrito (o que se espera que o trabalhador faça) e trabalho real (o que ele de fato faz para que a tarefa seja cumprida). A distância entre os dois é, sempre, maior do que os prescritores imaginam.
No ensino de psicologia, o trabalho prescrito da supervisão é relativamente claro: acompanhar casos, orientar estagiários, garantir qualidade ética e técnica da prática. O trabalho real envolve conter a angústia do estagiário antes de discutir o caso, negociar com a coordenação sobre número de alunos por grupo, lidar com pacientes que chegam em crise e estagiários que não sabem o que fazer, e ainda tentar manter a própria saúde mental enquanto faz tudo isso.
Falar sobre essa distância com os estudantes, tornar visível o que o trabalho real de supervisão e ensino exige, é um ato pedagógico. Prepara o futuro profissional para encarar seu próprio trabalho com honestidade, em vez de se surpreender com o gap entre o que esperava e o que encontra.
O que uma formação responsável faria com maio
O mês do trabalho poderia ser, nos cursos de psicologia, um mês de reflexão explícita sobre o trabalho clínico como trabalho, com suas condições, seus limites, suas formas de adoecimento. Não apenas como tema curricular abstrato, mas como pergunta concreta: o que estamos, enquanto instituição, fazendo com o trabalho das pessoas que aqui estudam e trabalham?
Essa pergunta não é confortável. Mas a psicologia que ensina sobre saúde sem se perguntar sobre as condições de saúde de quem a ensina e aprende tem um ponto cego considerável. Maio é um bom mês para olhar para ele.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.