Março é o mês em que o ritmo acadêmico finalmente se instala. Os estagiários já fizeram sua primeira ou segunda sessão com os pacientes, as angústias do início começaram a se organizar, e a supervisão começa a tomar forma regular. É também, curiosamente, o momento em que algumas zonas cegas pedagógicas ficam mais nítidas, não porque surjam agora, mas porque o ritmo instalado permite vê-las com mais clareza.
Uma das que mais me ocupa, na minha prática como supervisora e formadora, é o que chamo de supervisão que não supervisiona: o espaço de supervisão que tecnicamente existe mas que, na prática, cobre apenas a superfície do caso clínico sem tocar no essencial da formação do supervisionado.
O que a supervisão cobre, e o que evita
Uma supervisão funcional cobre o caso: o que o paciente disse, como o estagiário respondeu, o que seria indicado fazer na próxima sessão. Esse nível é necessário. Mas é insuficiente.
O que a supervisão muitas vezes evita é a dimensão do supervisionado como sujeito implicado no caso. Por que este estagiário especificamente se sentiu bloqueado diante daquele tema? O que nele respondeu àquele silêncio do paciente? Que teoria funcionou como defesa, uma forma de pensar o caso que impede de senti-lo?
Essa segunda camada é o que distingue a supervisão clínica de uma consultoria técnica. E é exatamente a que se perde quando a supervisão tem muitos alunos, pouco tempo, ou quando o supervisor, por formação ou por estilo, prefere o terreno mais seguro da discussão teórico-técnica.
O problema estrutural das clínicas-escola
É preciso ser honesto sobre os constrangimentos institucionais. As clínicas-escola brasileiras, especialmente as de faculdades privadas, operam, em geral, com recursos limitados e demandas crescentes. O supervisor que acompanha muitos grupos ao mesmo tempo tem dificuldade material de aprofundar cada caso com a dedicação que a formação exige.
Isso não é uma crítica aos supervisores: é um diagnóstico do sistema. As diretrizes curriculares nacionais estabelecem parâmetros para o estágio supervisionado, mas a implementação varia amplamente conforme a realidade institucional de cada curso. Em muitos contextos, a supervisão existe formalmente, cumpre os requisitos, mas não consegue ser o que deveria ser em termos pedagógicos.
O resultado é que parte significativa dos psicólogos brasileiros foi formada numa supervisão que supervisionou os casos mas não acompanhou suficientemente o processo de tornar-se clínico.
Três marcadores de uma supervisão que supervisiona de fato
Não há fórmula. Mas há marcadores que distinguem uma supervisão que realmente forma. O primeiro é a presença de perguntas sobre o supervisionado, e não apenas sobre o caso: "O que você sentiu quando o paciente disse isso?" é uma pergunta diferente de "O que você poderia ter dito?".
O segundo é a tolerância ao não saber. Uma supervisão que sempre tem resposta está, com frequência, encurtando o processo de aprendizagem. O estagiário que aprende a suportar a incerteza com o supervisor ao lado aprende algo que dura.
O terceiro, e talvez o mais raro, é a abertura do supervisor para ser surpreendido pelo caso através do relato do aluno. Quando o supervisor já sabe o que vai dizer antes de ouvir o que o estagiário trouxe, algo se perdeu.
Março como tempo de revisão
Inicio o segundo mês pleno do semestre com a seguinte prática: peço a cada supervisionado que escreva, em meia página, o que a supervisão tem feito por sua formação até agora, não o que os casos ensinaram, mas o que o espaço de supervisão, em si, produziu. A maioria hesita. Alguns escrevem coisas vagas. Mas invariavelmente há quem escreva algo inesperado, uma percepção sobre si mesmo, uma dúvida que ainda não tinha nome.
Essa prática simples me diz mais sobre o que está sendo supervisionado de fato do que qualquer avaliação formal. E me obriga, periodicamente, a revisar minha própria prática de supervisora. Isso é março: o mês em que o ritmo está instalado o suficiente para ser questionado.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.