Dezenove de abril passou, e com ele a visibilidade concentrada que o calendário concede aos povos indígenas do Brasil. Nos cursos de psicologia, esse dia raramente aparece como ocasião pedagógica. A formação segue seu ritmo, psicopatologia, desenvolvimento, clínica, como se a questão indígena fosse especialização de nicho, irrelevante para quem vai atender em consultório urbano.

Esse raciocínio tem um problema evidente: muitos psicólogos formados em centros urbanos vão trabalhar em municípios do interior, em CAPS, em NASF, em equipes de saúde da família, contextos onde podem, e frequentemente vão, encontrar pessoas indígenas. E vão encontrá-las sem a formação mínima para entender os determinantes específicos de saúde e sofrimento que marcam essas existências.

O que a psicologia brasileira ainda não aprendeu sobre saúde indígena

A relação entre psicologia e povos indígenas no Brasil tem uma história que precisa ser reconhecida honestamente: por muito tempo, a psicologia, como outras ciências psi, foi um instrumento de patologização e enquadramento de modos de vida indígenas em categorias desenvolvidas para outros contextos e outras populações.

Esse reconhecimento não é apenas ético. É epistemológico. Se o instrumental conceitual da psicologia foi desenvolvido predominantemente em contextos euro-americanos, aplicá-lo sem adaptação a populações indígenas, com suas cosmologias próprias, suas formas de compreender adoecimento e cura, suas estruturas comunitárias, não é neutralidade. É violência epistêmica com roupagem técnica.

A literatura produzida por pesquisadores brasileiros que trabalham com saúde mental indígena, e há pesquisa séria sendo feita, especialmente em universidades federais do Centro-Oeste e da Amazônia, aponta consistentemente para a necessidade de formação específica, de parcerias com as próprias comunidades, e de humildade epistemológica como postura básica.

O que falta nos currículos

Não se trata de incluir uma aula sobre "psicologia e indígenas" num semestre qualquer. Trata-se de rever a premissa de universalidade que estrutura grande parte do currículo. Quando se ensina desenvolvimento infantil, de que criança se está falando? Quando se ensina sobre luto, que cosmologia do morrer está implícita? Quando se ensina sobre família, que estrutura relacional se toma como norma?

Essas perguntas não são decorativas. São clínicas. Um psicólogo formado sem fazê-las vai cometer, em algum momento, o erro de tratar como patologia o que é diferença cultural.

Algumas iniciativas curriculares têm tentado enfrentar isso: disciplinas de psicologia e diversidade, estágios em contextos de saúde indígena (especialmente nos cursos próximos a territórios), parcerias com lideranças e sábias das comunidades como educadoras nos próprios cursos. São iniciativas ainda pontuais, mas que apontam uma direção.

A responsabilidade ética da formação

O CFP tem publicado documentos e orientações sobre a atuação de psicólogos em contextos indígenas, reconhecendo a especificidade ética dessa prática. Mas documentos do conselho não substituem formação curricular. O psicólogo que atende numa equipe de saúde indígena sem ter tido, em nenhum momento da graduação, contato com a questão está numa posição de risco, para si e, mais importante, para as pessoas que atende.

Depois do Dia dos Povos Indígenas, quando a visibilidade se dissipa e o calendário segue, a formação em psicologia tem a oportunidade de fazer o que o calendário não faz: manter a presença. Não como obrigação moral abstrata, mas como competência clínica concreta. Uma coisa boa, aliás, para aprender ainda na graduação: visibilidade pontual não é o mesmo que cuidado continuado.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.