Existe uma ironia silenciosa no ensino de psicologia: formamos profissionais que vão orientar pacientes sobre higiene do sono enquanto mantemos um modelo pedagógico que sistematicamente viola esse mesmo sono. Aulas noturnas que terminam às dez e meia, estágios que começam às oito da manhã no dia seguinte, trabalhos entregues à meia-noite como norma não declarada, e, em tudo isso, nenhuma discussão sobre o que essa estrutura faz com a capacidade dos estudantes de aprender o que estamos tentando ensinar.

O Dia Mundial do Sono, em meados de março, tem se consolidado como momento de conscientização pública. Profissionais de saúde publicam nas redes, textos circulam sobre as consequências do sono insuficiente para a saúde física e mental. Mas raramente essa conversa entra na sala de supervisão ou na aula de psicopatologia como um problema pedagógico real.

O que a literatura sobre aprendizagem e sono oferece

A relação entre sono e consolidação de memória é um dos achados mais robustos das neurociências cognitivas. Há indícios consistentes de que o sono, especialmente as fases de sono profundo, desempenha papel central na consolidação do que foi aprendido durante o dia. Isso não é especulação: é fenômeno suficientemente documentado para estar nos livros-texto de neuropsicologia que usamos na formação.

O que raramente se faz é a passagem do fenômeno para a prática pedagógica. Se sabemos que o sono pós-aprendizagem importa para a consolidação, por que estruturamos currículos que maximizam a privação de sono nos semestres mais intensos? Por que os estágios supervisionados, momentos de aprendizagem de alta complexidade, são frequentemente agendados logo após noites de plantão ou madrugadas de escrita de relatórios?

O estudante privado de sono que vai aprender clínica

Há uma dimensão específica deste problema para a psicologia que vai além da neurociência. O aprendizado clínico exige presença, capacidade de sustentar atenção flutuante, de perceber nuances afetivas, de tolerar o silêncio sem preenchê-lo ansiosamente. Essas capacidades são exatamente as que a privação de sono compromete com mais rapidez e consistência.

O estagiário que chega à supervisão com quatro horas de sono não está apenas cansado. Está, do ponto de vista neurocognitivo, em condições significativamente piores para o tipo de escuta que a formação clínica exige. E, mais grave: pode não perceber isso. A privação de sono compromete também a metacognição, a capacidade de avaliar o próprio funcionamento.

Isso levanta uma questão ética que raramente aparece nas discussões sobre formação: estamos formando clínicos em condições que comprometem sistematicamente as próprias capacidades que tentamos desenvolver?

O que as faculdades poderiam fazer, e o que raramente fazem

Não tenho uma lista de soluções fáceis. Currículos noturnos existem porque atendem a uma demanda real: a maioria dos estudantes de psicologia no Brasil trabalha durante o dia. Estágios matutinos existem porque os ambulatórios-escola precisam funcionar em horários de serviço. Não é possível simplesmente reorganizar isso sem consequências para a acessibilidade da formação.

O que é possível, e que raramente acontece, é nomear o problema. Incluir nas discussões pedagógicas a dimensão do sono como variável de aprendizagem. Permitir que o estudante que relata privação de sono crônica seja visto não como alguém que precisa "se organizar melhor", mas como alguém que está navegando uma contradição estrutural.

E, talvez mais importante: que os professores e supervisores de psicologia, que ensinam sobre saúde mental, modelem uma relação mais honesta com seus próprios limites de funcionamento. Isso, em si, já seria uma aula.

Uma nota para os supervisores de março

Março é o mês em que o cansaço acumulado de fevereiro começa a aparecer nos estagiários. É o mês em que o sono virou assunto público, e pode virar assunto pedagógico também. Perguntar ao grupo de supervisão como estão dormindo não é desvio de pauta. É, dependendo de como se conduz, uma das perguntas mais relevantes que um formador pode fazer.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.