Maio está chegando ao fim, e com ele um semestre que, para a maioria dos estagiários das clínicas-escola brasileiras, foi intenso. Casos difíceis, pacientes que não retornaram sem explicação, sessões que ficaram na cabeça por dias, supervisões em que o peso do que se ouve não encontrou espaço suficiente para ser processado. É o momento em que aparece, com mais força, uma pergunta que a formação raramente formula explicitamente: como o psicólogo em formação cuida de si?
Não estou falando de autocuidado no sentido de slogan de bem-estar: banho quente, diário, meditação. Estou falando de uma dimensão estrutural da formação que está, com frequência, ausente, o ensino de como sustentar o trabalho clínico ao longo do tempo sem se perder no processo.
O que a formação ensina sobre cuidado de si, e o que não ensina
Nos currículos de psicologia, o cuidado de si aparece geralmente em dois lugares. O primeiro é a ética profissional: o psicólogo tem deveres consigo mesmo, precisa manter saúde para exercer a profissão. O segundo é a indicação, quase sempre lateral, de que o psicólogo deve fazer sua própria psicoterapia, recomendação presente em muitas tradições formativas, especialmente as de orientação psicodinâmica.
Essas indicações existem. Mas raramente são tratadas como componentes formais da formação. A psicoterapia pessoal não é exigida curricularmente na maioria dos cursos brasileiros, é recomendada informalmente, quando é. E a saúde do clínico como tema pedagógico, o que fazer com o que o trabalho clínico provoca, como reconhecer os próprios limites, como pedir ajuda sem interpretar isso como inadequação, é tratado, quando é tratado, como assunto para a análise pessoal, não para o espaço de formação.
O resultado é que muitos estagiários chegam ao final do semestre carregando um acúmulo que não sabe como nomear, e que aprenderam, implicitamente, que nomear seria fraqueza.
A supervisão como espaço de cuidado, e seus limites
A supervisão clínica é o lugar onde, em teoria, o estagiário pode trazer não apenas o caso mas o que o caso provoca. É um espaço que deveria ser, ao mesmo tempo, técnico e humano, onde se discute o que fazer e se pode dizer o que se sentiu.
Na prática, a supervisão oscila entre esses polos com desigualdade. Quando o grupo é grande e o tempo é curto, a dimensão técnica tende a dominar, há casos para discutir, condutas a orientar, registros a avaliar. A dimensão do supervisionado como sujeito afetado pelo trabalho fica, frequentemente, para o final da sessão, quando o tempo já não permite desenvolvê-la.
Isso não é falha de nenhum supervisor em particular. É um problema estrutural que se resolve, quando se resolve, com grupos menores, mais tempo por caso, e formação de supervisores que inclua explicitamente a dimensão do cuidado ao supervisionando como competência a ser desenvolvida.
O que poderia ser feito no encerramento do semestre
O fim do semestre letivo tem uma função que vai além da avaliação e do encerramento dos casos. É um momento de processamento, de olhar para o que foi vivido e tentar integrar. Quando esse processamento não acontece, o estagiário leva para o próximo semestre o que não foi elaborado no anterior. E acumula.
Algumas práticas simples podem ajudar: uma última sessão de supervisão dedicada não a casos específicos, mas à experiência do semestre como um todo, o que foi mais difícil, o que surpreendeu, o que ficou sem resposta. Uma carta que o estagiário escreve para si mesmo sobre o que aprendeu, não sobre teoria, mas sobre si como clínico. Um espaço explícito para nomear o cansaço sem que isso seja lido como inadequação.
Práticas assim não resolvem o problema estrutural. Mas criam, ao longo de semestres consecutivos, uma cultura de formação em que o cuidado de si não é contravenção, é parte do trabalho. E isso, quem sabe, chega aos consultórios junto com os psicólogos que formamos.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.