Fevereiro tem um cheiro peculiar nas clínicas-escola brasileiras: formulários novos, salas que foram limpas nas férias e, sentadas à mesa de supervisão, pessoas que ainda não sabem muito bem o que estão fazendo. Os estagiários chegam com o manual do CFP decorado e uma ansiedade que não cabe no jaleco. O supervisor, por sua vez, chega com dez anos de prática e uma pergunta que raramente enuncia em voz alta: por onde começo?
Essa pergunta me parece o coração esquecido da supervisão. Falamos muito sobre a formação do estagiário, suas angústias, seus erros de escuta, a dificuldade de distinguir contratransferência de simpatia. Falamos menos sobre o que acontece do outro lado da mesa.
O supervisor que aprende ao ensinar
Há uma tradição no ensino de psicologia que trata o supervisor como uma figura já formada, cuja função é transmitir o que já sabe. Mas qualquer um que já supervisionou por um semestre inteiro sabe que a experiência não funciona assim. O estagiário traz casos que o supervisor nunca atendeu, populações com que não tem familiaridade, perguntas que parecem ingênuas mas que são, na verdade, cirúrgicas. "Por que a gente não pergunta diretamente sobre isso?", pergunta o aluno sobre uma cena de violência que o supervisor preferiu contornar. A ingenuidade técnica do estudante ilumina, às vezes, uma zona de conforto do experiente.
Supervisão é, portanto, uma via de mão dupla disfarçada de mão única. Quem transmite também recebe, e fevereiro é o momento em que essa troca se reinaugura, com um conjunto inteiramente novo de interlocutores.
O que as diretrizes curriculares dizem e o que silenciam
As Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de psicologia estabelecem o estágio supervisionado como componente obrigatório da formação, com carga mínima definida. O documento é claro quanto ao papel do supervisor: acompanhar, orientar, garantir que a prática não se descole da ética. O que as diretrizes não dizem, e não precisam dizer, porque é da ordem do implícito pedagógico, é que supervisionar bem exige que o supervisor esteja, ele mesmo, em processo contínuo de elaboração da própria prática.
Isso coloca uma questão institucional séria: em muitas faculdades privadas brasileiras, os supervisores têm cargas horárias que dificultam essa elaboração. Supervisionam muitos alunos, têm pouco tempo de intervisão entre pares, raramente frequentam grupos de estudo. O resultado é que o supervisor que "recomeça" em fevereiro muitas vezes o faz sem ter processado direito o que aconteceu no semestre anterior.
A ressaca de dezembro e o que ela ensina
Quem trabalha em ambulatório-escola sabe que dezembro tem uma textura própria: os estagiários concluem o semestre, os casos são encerrados ou transferidos, e há uma espécie de luto institucional que ninguém nomeia. O estagiário vai embora; o paciente fica (ou também vai); o supervisor fecha a pasta e, entre as festas e o recesso, raramente tem espaço para elaborar o que ficou suspenso.
Fevereiro, então, não é apenas começo. É também o lugar onde o não-elaborado de dezembro reaparece, agora embrulhado em novidade. O supervisor recebe alunos novos enquanto carrega, às vezes, a sensação de que ainda não terminou com os anteriores.
Reconhecer esse ciclo não é fraqueza: é precisamente o tipo de consciência clínica que queremos desenvolver nos estagiários. Se o supervisor não o reconhece em si mesmo, dificilmente conseguirá ensinar ao aluno a atentar para seus próprios processos.
Uma proposta simples para o início de semestre
Não é necessário nenhum protocolo elaborado. O que proponho, e que tenho ensaiado na minha própria prática como supervisora, é reservar a primeira sessão de supervisão do semestre para uma pergunta coletiva: o que cada um traz consigo deste recomeço? Não como terapia de grupo, não como devassa emocional, mas como gesto de reconhecimento de que supervisão acontece entre sujeitos que têm história.
O estagiário que sabe que o supervisor também recomeça aprende algo que nenhum manual ensina: que a prática clínica é um processo vivo, nunca concluído, e que ser experiente não significa estar livre da incompletude, significa saber trabalhar com ela.
Fevereiro é, assim, um presente disfarçado de recomeço. A questão é se estamos dispostos a abri-lo.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.