Todo 16 de junho, leitores ao redor do mundo abrem o Ulysses de James Joyce e percorrem, em páginas densissimas, um único dia na vida de Leopold Bloom, em Dublin, no ano de 1904. O Bloomsday não é um ritual literário qualquer: é uma celebração do interior humano, daquela torrente incessante de pensamentos, imagens, associações e divagações que Joyce chamou de fluxo de consciência. E é também, sem que Joyce precisasse saber o nome técnico, uma meditação sobre um dos problemas mais difíceis da filosofia da mente: o que é, afinal, essa voz que nunca cala dentro de nós?
William James e o rio que não para
Antes de Joyce publicar qualquer linha do Ulysses, o psicólogo e filósofo norte-americano William James já havia cunhado a expressão "stream of thought", no final do século XIX. Para James, o pensamento não era uma sequência discreta de ideias encaixadas como peças, mas um fluxo contínuo, ondulante, em que cada momento carrega a memória do anterior e a antecipação do próximo. Tem bordas difusas, não começos e fins nítidos.
Joyce não leu James como manifesto técnico, mas a convergência é espantosa. Os monólogos interiores de Molly Bloom, Stephen Dedalus e Leopold Bloom são precisamente isso: rios sem margem definida, onde uma lembrança de infância irrompe no meio de uma compra no açougue, onde desejo e culpa se embaralham na observação de uma nuvem. O que a literatura captou por intuição estética, a psicologia tentou descrever com rigor conceitual, e as duas descrições se reconhecem.
O que é difícil, e que vale dizer com honestidade, é que nem James nem Joyce explicaram de onde vem esse fluxo. Descreveram-no com maestria, mas a origem, o substrato, a razão pela qual existe uma experiência subjetiva em vez de nada, essa permanece uma das questões abertas mais radicais do pensamento contemporâneo.
Damásio e a mente que se conta
Décadas depois de James, o neurocientista António Damásio propôs uma tese que ressoa com o universo joyciano: a consciência, em seu nível mais elaborado, é inseparável da narrativa que o organismo constrói sobre si mesmo. Não se trata de metáfora. Com base em décadas de pesquisa em neurologia clínica, Damásio sugere que o "eu" não é uma entidade pré-dada que depois pensa, mas algo que emerge, momento a momento, da atividade do cérebro ao mapear o próprio corpo e ao relacioná-lo com o mundo.
Há, segundo essa perspectiva, uma espécie de proto-história que o sistema nervoso conta a si mesmo a cada instante. Uma narrativa sem palavras, visceral, que precede a linguagem e a sustenta. E quando a linguagem chega, ela herda essa estrutura narrativa e a amplifica: o "eu" que fala é filho do "eu" que sente, e este é filho do "eu" que respira, tem fome, tem medo.
Para quem leu o monólogo de Molly Bloom, essa descrição não soa abstrata. A torrente de Molly é esse rio em dois registros: o somático (o calor do lençol, o corpo que dói, o desejo que acorda) e o simbólico (Gibraltar, os ciúmes, os julgamentos morais). Joyce, sem vocabulário neurocientífico, encenou aquilo que Damásio buscaria articular em linguagem científica: a consciência como camadas sobrepostas de narração, da mais primitiva à mais elaborada.
A lacuna entre vivido e narrado
Mas há um problema que nem Joyce nem Damásio resolvem: a experiência vivida e a experiência narrada não são a mesma coisa. Filósofos chamam de "qualia" a qualidade subjetiva do vermelho que você vê, da dor que você sente, do gosto do café, algo que escorre entre os dedos de qualquer descrição. Você pode narrar que sentiu dor, mas a dor em si, enquanto ocorria, tinha uma textura que a narração só captura em parte.
Henri Bergson, contemporâneo de Joyce, insistia que a duração vivida, o tempo tal como flui na experiência, é irredutível às representações que fazemos dele. Quando nos lembramos de um momento ou o descrevemos, já o parcelamos, e algo se perde. O fluxo de consciência joyciano é uma tentativa genial de aproximar a linguagem da duração vivida, mas a tentativa mesma confirma a lacuna: é preciso muito esforço literário para insinuar o que é imediato na experiência.
Isso tem implicações para a clínica. Quando um paciente tenta descrever o que sentiu numa situação difícil, há uma distância inevitável entre o que ocorreu e o que ele consegue contar. O trabalho terapêutico, em muitas abordagens, é justamente habitar essa lacuna com cuidado, aproximar a narrativa que alguém faz de si da experiência que efetivamente atravessou. É lento, às vezes frustrante, porque a linguagem sempre chega depois.
O ruído de fundo que somos
Há ainda uma dimensão que o Bloomsday torna visível e que raramente conversamos no cotidiano: o quanto a mente produz narração de forma autônoma, sem que sejamos consultados. A pesquisa em cognição sugere, há décadas, que parte significativa da atividade mental ocorre fora do foco atencional consciente. O "mind-wandering", o pensamento que deriva enquanto executamos tarefas automáticas, ocupa uma porção considerável do tempo de vigília, segundo o que a literatura da área tem acumulado.
O que Joyce chamou de "monólogo interior" é, em boa parte, esse rádio ligado que não pedimos para ligar. A mente narra, comenta, julga, antecipa, relembra, sem que nos dediquemos deliberadamente a ela. E o tom do rádio importa: se a voz interna tende ao crítico, punitivo, catastrofizante, esse ruído de fundo afeta o humor, a motivação, a percepção das relações.
Perceber que esse rádio existe, que suas transmissões não são fatos sobre o mundo mas produções de um aparato com história, traumas e vieses, talvez seja um dos primeiros passos para uma relação mais livre consigo mesmo. Não silenciar o fluxo, porque isso é impossível e provavelmente indesejável. Mas aprender a não confundir o que a mente narra com o que a vida é.
O presente que nunca termina
Joyce escolheu um único dia para o Ulysses porque um único dia já é infinito por dentro. Cada momento contém estratos de tempo, vozes sobrepostas, história pessoal e história coletiva, desejo e receio. A consciência não vive em flashes discretos: ela tece, o tempo todo, uma tapeçaria em que passado e futuro invadem o presente.
O que a filosofia da mente ainda não sabe, e que vale dizer sem constrangimento, é como um conjunto de neurônios produz essa tapeçaria. O problema difícil da consciência, como foi nomeado pelo filósofo David Chalmers, permanece sem solução consensual. Sabemos muito sobre correlatos neurais, sobre o que acontece no cérebro quando a consciência muda de estado. Mas o salto da atividade neural para a experiência subjetiva, o porquê de haver algo que "é ser" Leopold Bloom passeando por Dublin, isso segue sendo, honestamente, um mistério.
E talvez seja esse mistério que faz o Bloomsday valer a pena, todos os anos, em todas as línguas. A literatura chegou perto de algo que a ciência ainda circunda. Mas note o desconforto que sobra: se o "eu" é a história que um aparato conta enquanto vive, então não há narrador por trás da narração, só o texto se escrevendo. Joyce passou setecentas páginas num único dia justamente para não nos deixar fugir disso. O Bloomsday não comemora uma resposta. Comemora a coragem de ficar dentro da pergunta sem fechá-la.
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