António Damásio é neurocientista português que tem influenciado a forma como pensamos consciência, emoção, self. José Saramago é romancista português que tem ensinado a forma como narramos memória e tempo. Pertencem a registros distintos. Vale colocá-los em conversa.

A motivação é direta. A psicologia clínica brasileira contemporânea trabalha frequentemente com material de memória, com narrativa de vida, com elaboração de experiência. As ferramentas conceituais que importamos vêm em sua maioria de neurociência cognitiva e de psicanálise. A literatura, surpreendentemente, oferece também ferramental.

O que Damásio escreve sobre memória

Em uma série de livros publicados desde os anos noventa, Damásio articula visão da memória como reconstrução. Não arquivo. Reconstrução ativa, contextual, sensível a estado afetivo no momento da recuperação. A memória não traz o passado intacto; refaz o passado a cada vez que volta.

A formulação tem suporte empírico em neurociência cognitiva moderna. Está alinhada com o que peças anteriores desta vertical e da vertical Neuro discutiram. Não é polêmica.

O que Saramago escreve sobre memória

Em romances como Ensaio sobre a Cegueira, em Memorial do Convento, em Levantado do Chão, Saramago opera memória como matéria narrativa. O passado não é coisa que se descreve; é coisa que se constrói no ato de narrar. O narrador saramaguiano sabe que está fazendo o que faz, e mostra que sabe.

O ponto interessante é que a articulação literária de Saramago, sem citar neurociência, descreve mecanismo semelhante ao que Damásio formula em registro científico. Memória é fazer, não trazer. Cada vez que se conta, refaz-se.

Onde os dois se encontram

Os dois registros, vistos juntos, sugerem postura clínica que vale considerar. Quando paciente narra história de vida em consultório, não estamos recebendo arquivo. Estamos assistindo ato de construção. O paciente refaz, naquele momento, o passado que está dizendo.

Isso muda a função clínica do trabalho com memória. Não é tarefa principalmente de recuperação. É tarefa principalmente de reconstrução. O paciente que sai do consultório saiu com memória diferente da que entrou. Não porque mentiu. Porque o ato de narrar é ato de fazer.

O que isso recomenda

Para a prática clínica, sugere atenção ao momento da narrativa como momento ativo. Vale pensar como conduzir, como interromper se necessário, como acompanhar. A literatura sobre trauma e reconsolidação, que peça anterior abordou na vertical Neuro, encontra aqui aliada filosófica.

Para a formação, sugere incorporação de leitura literária como parte da formação clínica. Não como ornamento. Como ferramental técnico. O psicólogo que leu Saramago lê paciente com sensibilidade que o psicólogo que só leu manual não consegue.

Para fechar

O encontro entre Damásio e Saramago, entre neurociência e literatura, entre Portugal científico e Portugal literário, oferece à psicologia clínica brasileira ferramental que vale a pena. Cada peça desta vertical tentará trazer um desses encontros. Em fevereiro, talvez Hannah Arendt e neurociência da atenção. Veremos.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.