Aristóteles pensou hábito como segunda natureza. William James, dois milênios depois, pensou hábito como o "imenso volante de inércia da sociedade". Entre os dois, há mais continuidade do que diferença. Vale revisitar.
A clínica contemporânea fala de hábito como se fosse conceito comportamental técnico. É também isso. Mas é também ideia filosófica antiga, com camadas que a tradução para neurociência ou para terapia cognitivo-comportamental nem sempre preserva.
Aristóteles, hexis
Em ética nicomaqueia, hexis é disposição estável adquirida. Não é ato isolado nem é caráter inato. É o que se forma por repetição da prática de certo modo. A virtude, para Aristóteles, é hexis. O vício também. Ambos são hábitos.
A passagem importante: hexis não é apenas comportamental. Tem componente afetivo e cognitivo. O homem virtuoso não apenas faz a coisa certa; sente prazer em fazê-la, e a faz pelo motivo certo. O hábito completo é triplo.
William James, habit
Em Princípios de psicologia, James pensa hábito como mecanismo cerebral. Antecipa em décadas o que a neurociência viria a descrever sobre plasticidade. Mas, importante, James também pensa hábito como categoria moral e social. A última seção do capítulo é instrução para jovens estudantes: forme hábitos cedo, e bem.
A frase famosa: "todo nosso ser é um conjunto de hábitos". Ela carrega tanto descrição empírica quanto recomendação ética. James não separa o que a ciência separaria depois.
O que a clínica perde quando esquece
Terapia cognitivo-comportamental contemporânea opera, em boa parte, com versão técnica do conceito de hábito. Comportamentos são instalados ou desinstalados por aprendizagem. A operação é eficaz para certas finalidades.
O que se perde, quando se reduz hábito a comportamento técnico, é a dimensão formativa: o sujeito que pratica certa coisa muitas vezes não apenas repete; muda. Aristóteles e James percebiam isso. Algumas tradições terapêuticas contemporâneas, como certas linhagens psicanalíticas e como abordagens de psicoterapia integrativa, preservam essa dimensão.
A clínica e o ano novo
O motivo de revisitar isso em janeiro é direto. A indústria de resoluções de ano novo opera com modelo behaviorista raso. Os hábitos que ela promete instalar em vinte e um dias não têm densidade aristotélica nem jamesiana. São rotina, no melhor caso. Não são forma.
A clínica que recebe pacientes desiludidos em fevereiro pode contribuir oferecendo outra leitura. Hábito que vale a pena é o que muda quem o pratica. Esse trabalho leva mais que três semanas.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.