25 de julho é Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, data que homenageia Tereza de Benguela, quilombola que liderou o Quariterê no século dezoito depois da morte do companheiro, e que a historiografia recente vem resgatando como símbolo de resistência política negra feminina no Brasil. É data de luta, de visibilidade, de orgulho legítimo. E é também, se a gente for honesta, um bom dia pra fazer uma pergunta que a psicologia clínica brasileira ainda responde mal: quem cuida da saúde mental da mulher negra?

Pergunta simples, resposta incômoda: quase sempre, ninguém. Ela cuida. Ela sustenta. Ela segura a barra da família extensa, do filho, da mãe idosa, do sobrinho que perdeu o pai, da amiga em crise. A literatura sobre feminismo negro, de Lélia Gonzalez a bell hooks, descreve com precisão o lugar estrutural que a mulher negra ocupa nas sociedades pós-coloniais: o de quem exerce o trabalho de cuidado (doméstico, emocional, comunitário) sem que esse trabalho seja nomeado, remunerado ou, principalmente, retribuído em cuidado de volta.

A solidão de quem nunca está sozinha

Existe um paradoxo clínico aqui que vale a pena nomear. A mulher negra brasileira, em boa parte dos arranjos que chegam ao consultório, dificilmente está fisicamente só: cerca familiar extensa, rede comunitária, muitas vezes é ela o centro afetivo de várias gerações ao mesmo tempo. E ainda assim, relatos de consultório (o meu inclusive, e aqui falo por experiência clínica, não por levantamento fechado) descrevem uma solidão específica, quase silenciosa: a de nunca ter em quem se apoiar do jeito que apoia os outros.

Chamo isso, na falta de termo técnico consagrado, de solidão do posto: ela ocupa um posto de cuidado que ninguém mais quer ocupar, e o posto não tem substituto nem folga. Adoecer, pra quem ocupa esse posto, não é opção disponível. Enquanto isso, os indicadores de sofrimento psíquico da população negra brasileira, mesmo sem número fechado que eu vá citar aqui, aparecem de forma recorrente em levantamentos do Ministério da Saúde e da literatura em saúde coletiva associados a menor acesso a serviço especializado, maior exposição a racismo institucional inclusive dentro do próprio sistema de saúde, e maior sobrecarga de trabalho de cuidado não remunerado.

Racismo institucional na própria clínica

E aqui a psicologia precisa se olhar no espelho, porque a solidão da mulher negra não é só social, é também um problema de acesso a cuidado psicológico adequado. O racismo institucional dentro do próprio sistema de saúde (inclusive saúde mental) é conceito reconhecido pelo CFP e por resoluções do próprio Conselho, que já orientam a categoria sobre atuação antirracista. Mulher negra relata, com frequência que a clínica ainda trata como anedota e devia tratar como dado sistemático, ter sofrimento minimizado por profissional branco que interpreta angústia legítima como "exagero" ou "resiliência natural", como se dor fosse traço de caráter e não sintoma.

Tem também o mito da mulher forte, que a psiquiatra e psicanalista negra Neusa Santos Souza já discutia em seus escritos sobre tornar-se negro no Brasil: a ideia de que mulher negra "aguenta tudo" não é elogio, é sequestro do direito à fragilidade. Toda paciente tem direito de chorar, de quebrar, de dizer "não aguento mais" sem que isso seja lido como desvio de uma suposta força natural que na verdade foi imposta.

O que muda quando a data vira prática

Data comemorativa serve pra pouca coisa se não vira pergunta de terça-feira comum dentro do consultório e da política pública. Formação em competência racial pro profissional de psicologia, hoje, ainda é exceção na grade, não regra. CAPS e serviço de atenção básica raramente têm dado desagregado por raça que permita enxergar se a mulher negra está ou não chegando ao serviço, e se está saindo dele tratada com dignidade.

O convite que fica, no 25 de julho, não é o de mais uma homenagem de rede social. É o de perguntar, com honestidade, quem dentro do seu consultório, da sua equipe, do seu serviço, está cuidando de quem cuida de todo mundo. Se a resposta for "ninguém perguntou", a data já cumpriu a única função que ainda pode cumprir: incomodar.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.