Fevereiro traz o Carnaval, com sua promessa de fusão coletiva. E traz também o 14 de fevereiro, o Dia de São Valentim, data internacional dos namorados que a publicidade global despeja sobre nós todo ano, ainda que no Brasil a data oficial seja outra: o 12 de junho. As duas celebrações, a de fevereiro e a de junho, partilham uma mesma ideia de encontro. Mas quem se encontra com quem, em que condições, com que proteção, essas perguntas a celebração não faz.
A psicologia do amor romântico tem uma história longa e, em boa parte, pouco examinada em sua dimensão social. As teorias clássicas do apego, Bowlby, depois Ainsworth, foram construídas em contextos muito específicos do norte global, com famílias de configurações igualmente específicas. Quando importamos esses modelos sem ajuste para o Brasil, perdemos algo fundamental: que o afeto se organiza também pela estrutura social em que os corpos habitam.
O mercado que vende o amor
A economia das datas românticas movimenta cifras consideráveis, seja no 14 de fevereiro internacional, seja no Dia dos Namorados brasileiro de junho. Flores, chocolates, jantares, presentes. A publicidade que sustenta esse mercado tem um protagonista muito bem definido: o casal heterossexual, de aparência branca ou embranquecida, em contexto de classe média. Essa imagem não é neutra.
Há uma dimensão psicossocial importante aqui. Quando determinados corpos nunca aparecem como sujeitos do romance nas narrativas dominantes, pessoas negras, gordas, com deficiência, pessoas LGBTQIA+, o efeito não é apenas de invisibilidade estética. É de sinalização de quem pertence ao mundo do amor legítimo e quem não pertence. A psicologia social chama atenção para como a representação, ou sua ausência, estrutura a experiência subjetiva de pertencimento e desejo.
Afeto e violência no mesmo endereço
O dado mais perturbador sobre relações afetivas no Brasil não aparece na publicidade de chocolates. O Brasil carrega índices de violência doméstica entre os mais altos do mundo, a casa, o espaço do amor prometido, é também o espaço de maior risco para mulheres, especialmente mulheres negras e pobres. O Ligue 180, central de atendimento à mulher em situação de violência, registra volumes de denúncias que demandam resposta urgente do SUS, do SUAS e das políticas públicas.
Falar de amor romântico sem tocar nessa realidade é um luxo que a psicologia social não pode se dar. A idealização do romance, "amor que dói é amor de verdade", "ciúme é sinal de amor", não é apenas clichê cultural inofensivo. Ela opera como justificativa para dinâmicas de controle e violência. E essa operação é mais letal quando se combina com a vulnerabilidade econômica, que prende mulheres em relações de dependência.
Relacionamentos como projeto político
Há uma tradição, na psicologia comunitária brasileira, de pensar o afeto como campo político. Não no sentido de partidarizar o amor, mas de reconhecer que a capacidade de construir vínculos saudáveis depende de condições que a sociedade precisa garantir: moradia segura, renda, acesso à saúde mental, proteção contra a violência.
O CFP tem produzido reflexões importantes sobre saúde mental e gênero, sobre os efeitos psíquicos do racismo nas relações afetivas, sobre como o sofrimento das margens raramente aparece na clínica convencional. Essas reflexões apontam para uma psicologia do amor que não fica no consultório de classe média, que desce às periferias, aos centros de referência para mulheres em situação de violência, às comunidades onde o afeto resiste apesar de tudo.
Diante de qualquer data que celebre o amor, a de fevereiro ou a de junho, a pergunta que fica não é "você está namorado?", mas "você está seguro? Você tem condições de amar e ser amado sem precisar pagar com a própria vida por isso?" Essas perguntas têm resposta política antes de ter resposta clínica.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.