Ando lendo manchetes sobre epidemia de ansiedade desde 2020. Os números variam. A narrativa não. Brasileiros estariam mais ansiosos que nunca, em escala epidêmica. É hora de desmontar a frase.
Não porque pessoas não estejam sofrendo. Estão. Mas porque a palavra epidemia diz coisas específicas, e quase nada do que dizem se aplica aqui.
O que é uma epidemia
Em epidemiologia, epidemia significa aumento de casos acima do esperado em população definida, em janela temporal específica. O critério é estatístico, não retórico.
Dados longitudinais brasileiros do PNS 2013 e 2019 mostram aumento na identificação de sintomas ansiosos, não necessariamente na incidência de transtornos diagnosticados clinicamente. A diferença é técnica, mas importa muito.
Por que confundir importa
Tratar reconhecimento como epidemia gera política pública errada. Investimento massivo em medicalização emergencial. Falta de investimento em condições sociais que geram o sofrimento de fundo. Mídia transformando todo desconforto em sintoma a ser tratado.
O caminho é diferente. Reconhecer o crescimento do vocabulário como ganho. Investir em saúde mental de base sem pânico. Diferenciar sofrimento social, traços ansiosos e transtorno diagnosticável. Três coisas que pedem três respostas.
O que a clínica pede
Para clínicos: cuidado com a tentação de aceitar epidemia como diagnóstico social. É frase de jornalismo, não categoria clínica. A primeira sessão continua sendo a primeira sessão.
Para gestores de saúde pública: política responde a evidência longitudinal, não a manchete. As edições de 2013 e 2019 da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) estão aí para consulta, e a primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental, em coleta desde 2026, deve ampliar esse retrato nos próximos anos. Vale acompanhar os dados antes de cravar planos.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.