O fim do verão brasileiro tem um sabor particular. A volta às aulas, o retorno ao trabalho, o fim das férias escolares das crianças, tudo isso converge em fevereiro com uma intensidade que muita gente sente no corpo antes de nomear na mente. O cansaço chega cedo, antes mesmo que o ano tenha começado de verdade.
A narrativa dominante sobre esse fenômeno é a do burnout de início de ano: o profissional esgotado que mal terminou as férias e já se vê soterrado de demandas. É uma narrativa real, mas ela tem cor, classe e endereço. E quando a psicologia social trata esse cansaço como universal, perde de vista quem adoece de quê e por quê.
O cansaço que não tira férias
Para uma parcela significativa da população brasileira, o verão não é pausa. É trabalho extra. Trabalhadores domésticos, categoria marcada de forma expressiva por mulheres negras no Brasil, costumam ter a carga aumentada nos meses de férias escolares das famílias que empregam. Vendedores ambulantes, trabalhadores do turismo informal, catadores de material reciclável: para esses grupos, o verão é pico de produção, não de descanso.
Quando fevereiro termina e o "retorno à rotina" é anunciado, o que retorna, para eles, é a rotina de sempre, sem o incremento de renda temporário que o verão oferecia. O que a psicologia do estresse chama de recuperação, o tempo de não-trabalho necessário para restaurar os recursos psicológicos, simplesmente não aconteceu.
Estresse crônico e racismo
A literatura internacional e a pesquisa brasileira mais recente convergem em um ponto: a exposição crônica ao racismo funciona como estressor de longa duração. Não estamos falando de episódios isolados de discriminação, embora esses também causem dano documentado, mas da experiência cotidiana de ser monitorado, subestimado, preterido, de ter que provar competência que não é questionada em corpos brancos.
Esse estresse crônico tem correlatos somáticos. Há indícios na literatura de que ele afeta sistemas como o imunológico e o cardiovascular, além de estar associado a maior prevalência de sofrimento psíquico. Pesquisadores ligados ao campo da saúde da população negra no Brasil, e ao debate sobre determinantes sociais da saúde promovido pela Fiocruz, entre outros, têm chamado atenção para essa dimensão há anos, com pouca tradução em políticas públicas.
O que o CAPS vê que o consultório não vê
Há dois circuitos paralelos de saúde mental no Brasil. Um é o dos consultórios privados, concentrados nas capitais, majoritariamente acessados por pessoas de renda média e alta, em sua maioria brancas. Outro é o da Rede de Atenção Psicossocial, o RAPS, com seus CAPS, UBS, equipes de saúde da família, que atendem a periferia, os territórios mais vulneráveis, as populações que o mercado não alcança.
Esses dois circuitos não falam a mesma língua, e raramente debatem juntos. O que o CAPS vê em fevereiro, a mãe que perdeu o emprego doméstico com o fim das férias dos patrões, o jovem negro que não voltou para a escola, o homem que bebe porque não tem outro lugar para colocar o sofrimento, não aparece nas matérias de revista sobre "saúde mental no retorno às atividades".
A psicologia social que interessa é aquela que se recusa a separar os dois mundos. Que pergunta: esse cansaço de fevereiro, quem o carrega com mais peso? E o que a clínica, o Estado e a sociedade devem a essas pessoas?
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.