Julho chega e, com ele, a comoção sazonal. Manchete de jornal, campanha de agasalho, foto de cobertor num viaduto. É bonito, é necessário, mas também é sintoma de uma coisa mais feia: a gente só olha pra população em situação de rua quando o termômetro obriga. O resto do ano ela é paisagem, é obstáculo na calçada, é "problema de segurança pública". Só no frio ela vira, por uns quinze dias, gente que pode morrer.

E morre. Óbito por hipotermia em rua não é hipérbole retórica de coluna de opinião, é registro de ocorrência recorrente em capitais brasileiras nos meses de frio mais intenso, especialmente no Sul e no Sudeste. O que interessa aqui não é discutir número (não vou fabricar estatística que não tenho na mão), é discutir a lógica: por que uma sociedade deixa alguém dormir ao relento em pleno inverno e só reage quando o corpo já não aguentou.

O que o frio revela sobre saúde mental

A relação entre situação de rua e sofrimento psíquico é bidirecional e a literatura em saúde coletiva vem insistindo nisso: nem todo mundo que está na rua chegou lá por causa de transtorno mental, mas estar na rua adoece a mente de quem quer que seja. Sono fragmentado por medo de assalto ou de operação de "limpeza urbana", hipervigilância constante, uso de substância como anestesia contra o frio e contra a dor psíquica, ruptura de vínculo familiar e comunitário: é um coquetel que qualquer manual de psicopatologia reconheceria como terreno fértil para quadro depressivo, ansioso, ou agravamento de sofrimento psicótico preexistente.

O Ministério da Saúde reconhece essa população como prioritária dentro da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), e existe desenho de política pública pensado exatamente pra isso: os Consultórios na Rua, equipe multiprofissional que atende onde a pessoa está, sem exigir que ela primeiro se adeque a uma sala de espera. É política correta no papel. Na prática, a cobertura é desigual, a equipe é escassa, e o inverno testa o sistema no seu ponto mais frágil: capacidade de acolhimento de emergência.

SUS, SUAS e a lacuna entre eles

Aqui mora um nó técnico que pouca gente de fora do serviço percebe: saúde mental de população em situação de rua não é problema só de saúde. É articulação, ou falta dela, entre SUS e SUAS (Sistema Único de Assistência Social). CAPS trata sofrimento psíquico. Centro POP e abrigo tratam moradia e acolhida. Quando os dois sistemas não conversam, a pessoa é passada de mão em mão: o CAPS diz que ela precisa de teto pra estabilizar tratamento, o abrigo diz que não tem estrutura pra lidar com crise psiquiátrica, e ela volta pra calçada com os dois diagnósticos e nenhuma solução.

Isso não é falha de indivíduo, é falha de desenho de rede. E o inverno, com sua urgência visceral (frio mata rápido, sofrimento psíquico mata devagar), acaba forçando um paliativo: abertura de abrigo emergencial temporário, muitas vezes sem equipe de saúde mental dentro, que resolve hipotermia e não resolve o resto.

Vale lembrar também que boa parte dessa população não está na rua por escolha nem por "falta de vontade de se ajudar", frase que ainda ouço, com espanto, de gente formada. Trajetória de rua costuma envolver perda de emprego, ruptura familiar, luto, uso problemático de substância, ou sofrimento psíquico grave sem suporte. Território importa: quem está em situação de rua no centro de São Paulo vive uma experiência de vigilância e violência policial distinta de quem está numa cidade menor do interior. A clínica, se quiser ser séria, precisa parar de tratar "morador de rua" como categoria homogênea.

O que a clínica pode (e não pode) fazer

Psicólogo de CAPS, de Consultório na Rua ou de qualquer serviço que cruze com essa população sabe que a técnica de consultório tradicional não serve pra rua. Não tem setting, não tem sigilo de sala fechada, não tem garantia de retorno na semana seguinte porque a pessoa pode ter sido removida daquele ponto pela guarda municipal. O vínculo se constrói devagar, em pé, no meio da calçada, com interrupção constante. É outra clínica, e formar profissional pra ela ainda é exceção, não regra, nos currículos de graduação.

O que dá pra afirmar com razoável segurança é isto: nenhuma campanha de agasalho substitui rede de cuidado continuado. Cobertor salva uma noite. Vínculo terapêutico sustentado, articulado com moradia e renda, é o que sustenta uma vida. Mas vínculo sustentado custa caro, exige gestão pública competente ano inteiro, não só em julho.

A pergunta que fica, pro leitor confortável na própria cama enquanto lê isto: o que a sua cidade faz em agosto, quando ninguém mais está filmando o cobertor?

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.