Toda vez que o assunto é saúde mental de jovens no Brasil, aparece o mesmo personagem: um adolescente de classe média, provavelmente branco, no quarto com o celular, consumindo conteúdo em excesso e incapaz de tolerar frustração. É para esse personagem que a maioria dos artigos, dos podcasts e das campanhas de 12 de agosto são escritos. O outro jovem, aquele que mora na periferia de Fortaleza ou de Belém, que saiu da escola aos dezesseis anos para trabalhar em entrega de aplicativo ou que dorme com o barulho de tiro lá fora, esse jovem raramente aparece nas conversas sobre saúde mental. Quando aparece, é como dado epidemiológico. Nunca como sujeito.

O Dia Internacional da Juventude foi instituído pela ONU para lembrar ao mundo que jovens precisam de condições reais de desenvolvimento: educação, trabalho digno, participação política, proteção. A data tem uma agenda estrutural. Mas o que o debate brasileiro faz com ela, em geral, é psicologizar o problema, transformar uma questão coletiva em responsabilidade individual, e vender resiliência como solução.

O diagnóstico que não fecha

Há um esforço legítimo, dentro da psicologia e da saúde pública, de reconhecer que a saúde mental da juventude brasileira está sob pressão. A literatura internacional tende a apontar aumento de sintomas ansiosos e depressivos entre adolescentes e jovens adultos em contextos de incerteza econômica prolongada, exposição a violência e precariedade de vínculos. No Brasil, esses fatores não são abstratos. Eles têm endereço, cor e CEP.

O problema começa quando o diagnóstico para na biologia ou no comportamento individual e não chega na estrutura. Quando se diz que "a geração Z é mais ansiosa" sem perguntar: ansiosa em relação a quê? A um futuro de trabalho que não tem forma ainda? A uma dívida que cresceu enquanto o ensino médio foi reformado sem consenso? A um corpo que circula em território onde o Estado aparece armado antes de aparecer com escola ou CAPS?

Cuidado com o atalho, porque ele corta nos dois sentidos. Dizer que o sofrimento tem causa estrutural não é dizer que ele não dói, nem que não precisa de clínica. O jovem que chega em pânico chega em pânico de verdade, e merece atendimento de verdade. Reduzir o sofrimento dele a "é só o sistema" é abandoná-lo por cima, do mesmo jeito que reduzir a "é só ele que não aguenta" é abandoná-lo por baixo. O ponto não é escolher entre mente e mundo. É recusar quem te obriga a escolher.

A psicologia tem instrumentos para distinguir sofrimento que pede tratamento clínico de sofrimento que pede, antes, mudança de condição de vida, sabendo que os dois quase sempre andam juntos. Mas esses instrumentos são mal utilizados quando ignoram o contexto. Um jovem negro que relata hipervigilância constante em espaço público não está apresentando um traço de personalidade: está descrevendo uma experiência de vida documentada por organizações de direitos humanos, pesquisadores de segurança pública e pelo próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O sintoma faz sentido. O problema é o mundo, não apenas a mente.

A armadilha do "nem-nem"

O fenômeno dos jovens que não estudam nem trabalham, popularizado como "nem-nem", virou alvo fácil de moralização. A narrativa dominante sugere falta de esforço, excesso de conforto, dependência digital. Institutos sérios de pesquisa já mostraram, no entanto, que a maior parte dessa população é composta por jovens mulheres que saíram do mercado para cuidar de filhos ou de familiares. Jovens que pararam de estudar porque o percurso escola-casa era perigoso. Jovens que tentaram o mercado formal e encontraram portas fechadas por causa do CEP, do sobrenome, da ausência de rede de contatos.

Isso não é falta de resiliência. Isso é estrutura.

A saúde mental desses jovens é comprometida não por excesso de telas ou ausência de mindfulness. É comprometida pela combinação de desigualdade de acesso, violência urbana seletiva, mercado de trabalho que precarizou antes de incluir, e um sistema de saúde mental que ainda não chegou de forma consistente nos territórios onde esses jovens vivem. O CAPS existe em muitos municípios no papel. Na prática, há filas, falta de profissionais e ausência de escuta especializada para adolescentes.

O que a clínica não pode fazer sozinha

A psicologia tem muito a oferecer à juventude brasileira. Escuta qualificada, acolhimento, ferramentas para lidar com o sofrimento que já está instalado. Mas a clínica não pode fazer o que cabe à política pública. E quando ela tenta preencher esse vazio sozinho, quando o psicólogo vira o único agente presente num território sem escola boa, sem lazer, sem renda, sem segurança, o risco é tratar individualmente o que é coletivo, e devolver ao jovem a responsabilidade por uma situação que ele não criou.

O CFP tem pautado, de formas diversas, a necessidade de uma psicologia comprometida com os direitos humanos e com a realidade social brasileira. Essa não é uma posição ideológica no sentido pejorativo. É uma consequência direta do que se observa quando se atende jovens em contextos de vulnerabilidade: o sofrimento raramente é só intrapsíquico. Ele tem dimensão familiar, comunitária, econômica e racial.

O punchline que ninguém quer ouvir

O Dia Internacional da Juventude deveria ser desconfortável. Deveria nos forçar a perguntar por que os indicadores de sofrimento mental são consistentemente piores entre jovens negros e periféricos, por que a violência letal no Brasil tem rosto jovem e pobre, por que a escola que deveria ser um fator de proteção ainda é, para muitos, um lugar de exclusão antes de ser de pertencimento.

Há um esforço real, dentro e fora da psicologia, para nomear essas questões com honestidade. Mas o discurso público ainda prefere a versão mais confortável: o jovem que precisa de regulação emocional, não o Estado que precisa de responsabilização.

Enquanto o debate sobre saúde mental juvenil continuar produzindo campanhas que individualizam o sofrimento e ignoram a estrutura, o 12 de agosto vai continuar sendo o dia em que o Brasil diz que se importa com a juventude sem precisar mudar nada de verdade. E a juventude que mais precisaria ser vista vai continuar sendo dado. Nunca sujeito.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.