O outono começa discretamente no Brasil. Não com a dramaticidade de folhas caindo que o imaginário europeu fixou, mas com uma diminuição da luz, uma umidade que chega, e, nas escolas públicas, com um esgotamento que se acumulou desde janeiro e começa a pesar de verdade em março.
Professoras e professores da rede pública brasileira estão, há anos, no centro de uma crise de saúde mental que recebe atenção desproporcional ao tamanho do problema. Fala-se muito de saúde mental de estudantes, e essa conversa é necessária. Fala-se pouco de quem está do outro lado da sala, sustentando um sistema que foi sistematicamente desinvestido.
O que a categoria docente carrega
A profissão docente no Brasil é majoritariamente feminina, especialmente na educação básica. É também uma categoria marcada pela precarização: vínculos temporários em muitos estados, salas superlotadas, ausência de suporte de saúde mental institucional, violência simbólica e, em alguns territórios, violência física.
Há indícios consistentes na literatura de psicologia organizacional e da saúde de que a combinação de alta demanda emocional, baixo controle sobre o próprio trabalho e suporte social insuficiente é fator de risco para burnout. A escola pública brasileira, particularmente em periferia, reúne essas condições com frequência.
O que é menos discutido é a dimensão racial desse esgotamento. Professoras negras na periferia não apenas lidam com salas superlotadas, elas frequentemente ensinam em territórios marcados por violência urbana, acolhem estudantes em sofrimento agudo sem suporte especializado, e ainda carregam o peso de representar, para crianças e adolescentes negros, uma das poucas referências de intelectualidade negra adulta em posição de autoridade. Isso é belo e exaustivo ao mesmo tempo.
O que o Estado não oferece
A Rede de Atenção Psicossocial deveria ser o ponto de chegada do trabalhador que adoece. Na prática, o acesso de professoras e professores às políticas de saúde mental é irregular e dependente do município, há secretarias de educação que desenvolveram programas de apoio psicológico às equipes docentes, mas isso não é regra.
O CFP e os CRPs têm produzido reflexões sobre a inserção da psicologia na escola, uma conversa que vai além do psicólogo escolar que avalia estudantes e que começa a incorporar a saúde mental de todos os trabalhadores da escola. Mas a tradução dessas reflexões em política pública é lenta.
O que pode ser feito agora
Em março, quando o outono começa e o cansaço se instala, a pergunta não é abstrata. É: o que a gestão escolar, a secretaria de educação, o poder público municipal e estadual, e a própria comunidade podem fazer agora?
Escuta ativa das equipes docentes. Redução de burocracia que devora tempo que poderia ser de planejamento e autocuidado. Suporte psicológico acessível dentro da própria rede, não como recurso de crise, mas como parte regular do cuidado. E, acima de tudo, reconhecimento de que o burnout docente não é fraqueza individual, mas resposta racional a um sistema que exige demais de quem menos lhe dá.
Enquanto o debate sobre saúde mental segue centrado no estudante, o adulto que torna a escola possível adoece em silêncio. Isso não é inevitável. É escolha política.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.