Existe um ponto cego na psicologia brasileira que poucas pessoas falam abertamente: a distância entre o que a disciplina produz como conhecimento sobre povos indígenas e o que ela oferece como cuidado efetivo a essas populações.
O Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, acaba de passar, ou está próximo, conforme você lê isso. É um bom momento para fazer uma pergunta desconfortável: a psicologia brasileira está, de fato, presente nos territórios indígenas? E quando está, a que veio?
Presença sem escuta
O Subsistema de Saúde Indígena, gerido pela SESAI dentro do Ministério da Saúde, existe formalmente desde o início dos anos 2000. Ele é, em tese, um avanço, o reconhecimento de que populações indígenas têm especificidades de saúde que demandam estrutura própria.
Na prática, os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) operam com subfinanciamento histórico, alta rotatividade de profissionais e enorme dificuldade de recrutar e manter equipes. Psicólogos e psicólogas são particularmente escassos nos DSEIs. Quando estão presentes, raramente têm formação específica para trabalhar com povos indígenas, suas diferentes concepções de saúde, doença, morte, cura.
Isso importa. A psicologia ocidental carrega pressupostos sobre o indivíduo, sobre a interioridade, sobre o que constitui sofrimento e cura, que não são universais. Quando esses pressupostos chegam a um território indígena sem a humildade epistêmica necessária, o resultado pode ser a patologização de práticas culturais, a desvalorização dos sistemas de cura tradicionais e a produção de mais dano do que cuidado.
O que a crise Yanomami ensinou (ou deveria ter ensinado)
A emergência humanitária no território Yanomami, reconhecida formalmente no início de 2023, expôs o que pesquisadores e lideranças indígenas vinham dizendo há anos: o abandono sistemático de populações originárias pelo Estado brasileiro tem consequências letais. Desnutrição, malária, violência, e sofrimento psíquico agudo, inclusive de crianças, que cresceram em contexto de insegurança extrema.
A resposta emergencial que se seguiu trouxe profissionais de saúde. Mas trouxe pouquíssimos com formação em saúde mental intercultural. A crise Yanomami foi um espelho. O que a psicologia brasileira viu nele?
O que o CFP tem debatido
O Conselho Federal de Psicologia tem produzido documentos e referências técnicas sobre psicologia e povos indígenas, sobre saúde mental e direitos humanos em contextos de violação. Essas referências existem. O que falta é sua tradução em formação de graduação, a maioria dos cursos de psicologia no Brasil ainda não inclui de forma sistemática a saúde indígena em seu currículo.
Mudar isso não é apenas questão de inclusão curricular. É questão ética. O Brasil tem mais de duzentos povos indígenas, com línguas, cosmologias e sistemas de cuidado distintos. Uma psicologia que se pretende brasileira e que ignora essa diversidade não é apenas incompleta, é colonial.
O que seria diferente, se a psicologia brasileira tratasse os povos indígenas como sujeitos de cuidado, em vez de objetos de análise? Essa pergunta não tem resposta fácil. Mas ela precisa ser feita, toda vez, inclusive em 10 de abril.
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