Todo 8 de março, a internet enche de posts sobre saúde mental feminina. Autocuidado, limites, sororidade. Algumas marcas oferecem desconto, algumas clínicas oferecem lives. E as mulheres que mais adoecem no Brasil, mulheres negras, periféricas, chefes de família, trabalhadoras domésticas, continuam, em sua maioria, fora desse debate.

Não estou dizendo que as campanhas são má-fé. Estou dizendo que são insuficientes. E que a insuficiência tem estrutura.

O que os dados do SUS não nos deixam ignorar

O sistema de saúde brasileiro tem, nos últimos anos, ampliado a capacidade de gerar dados estratificados por raça e cor. E esses dados, quando cruzados com os indicadores de saúde mental, revelam um quadro que a psicologia social não pode passar ao largo.

Mulheres negras têm menor acesso a diagnóstico e tratamento de transtornos mentais pelo sistema de saúde, não porque adoeçam menos, mas porque encontram mais barreiras, territoriais, econômicas, culturais, para chegar ao serviço. Quando chegam, há indícios de que o acolhimento é com frequência inadequado: o sofrimento psíquico é medicalizado sem escuta, ou é naturalizado ("a mulher negra é forte") sem cuidado.

A "mito da superwoman", a crença de que a mulher negra tem uma resistência sobre-humana, não é apenas clichê. É uma operação ideológica com consequências clínicas. Ela desumaniza ao mesmo tempo que sobrecarrega, e tem sido discutida com rigor crescente no campo da psicologia da saúde da população negra no Brasil.

Carga mental e trabalho invisível

A carga mental das mulheres, o trabalho cognitivo de gerenciar a casa, as crianças, as relações, os compromissos, está bem documentada na literatura de psicologia social e sociologia do trabalho. Mulheres fazem mais trabalho doméstico não remunerado que homens, mesmo quando trabalham as mesmas horas fora de casa.

Para mulheres negras, essa carga tem uma camada adicional: elas são desproporcionalmente representadas no trabalho doméstico remunerado, o que significa que, além de gerenciar o próprio lar, gerenciam o lar alheio. O trabalho doméstico remunerado no Brasil é ainda marcado por informalidade, ausência de direitos garantidos na prática e invisibilidade social, tudo isso com efeitos diretos sobre a saúde mental.

Quando falamos de carga mental em 8 de março, precisamos falar disso. Não apenas da gestora que coordena reunião e lembra do aniversário da escola ao mesmo tempo, narrativa real, mas que representa uma fatia pequena do universo das mulheres brasileiras.

O que a psicologia deve ao feminismo negro

O feminismo negro brasileiro, de Lélia Gonzalez a Djamila Ribeiro, passando por todas as pensadoras e ativistas que vieram entre elas, construiu um corpo de reflexão sobre o lugar da mulher negra na sociedade brasileira que a psicologia acadêmica levou tempo para incorporar. Ainda incorpora parcialmente.

A interseccionalidade, conceito desenvolvido por Kimberlé Crenshaw e que encontra ressonância na produção intelectual brasileira, não é jargão acadêmico. É ferramenta clínica. Quando um profissional de saúde mental não está equipado para entender como raça, gênero e classe se combinam para produzir formas específicas de sofrimento, ele não está equipado para cuidar de grande parte da população brasileira.

Este 8 de março pode ser uma oportunidade. Não para o post de engajamento, mas para a pergunta incômoda: a quem eu sirvo? E quem fica fora do meu alcance, e por quê?

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.