Existe uma forma de sofrimento psíquico que a psicologia brasileira convencionou não nomear com clareza: o sofrimento de habitar um território onde o medo é condição estrutural de vida. Não o medo episódico, que todos conhecem, mas o medo crônico, o que está embutido no trajeto de casa para o trabalho, na decisão de sair depois das seis, no reflexo de jogar-se no chão ao ouvir um barulho alto.
Esse sofrimento tem endereço. Ele mora, majoritariamente, nas periferias das grandes cidades brasileiras, nos territórios que concentram a pobreza, a negritude e a ausência do Estado em sua dimensão protetora, ao mesmo tempo em que o Estado aparece, com frequência, em sua dimensão mais violenta, através de operações policiais que deixam rastros de luto e trauma.
Violência de Estado como fator de risco
A psicologia do trauma tem um corpus extenso sobre os efeitos psicológicos da exposição à violência. O que essa literatura raramente acomoda, porque foi construída em outros contextos, é a violência perpetrada ou tolerada pelo próprio Estado como fonte de trauma crônico em comunidades.
No Brasil, populações periféricas negras vivem, em muitos territórios, sob risco constante de violência policial. Isso não é retórica, é documentado por organismos nacionais e internacionais de direitos humanos. E tem efeitos sobre a saúde mental: sintomas de hipervigilância, dificuldade de sono, restrição do espaço de vida (não sair à noite, não deixar os filhos irem à rua), luto repetido por pessoas próximas que morreram de forma violenta.
Esse conjunto de efeitos é compatível com o que a literatura descreve como estresse pós-traumático, mas em uma modalidade que os critérios diagnósticos clássicos não capturam bem: não é um evento único no passado, mas uma ameaça que se renova no presente, sem que haja um "pós-" real.
O luto que não tem ritual
Nas periferias brasileiras, uma dimensão do sofrimento que merece atenção específica é o luto. Comunidades que perdem, ano após ano, jovens para a violência armada, seja do tráfico, seja da polícia, frequentemente numa zona onde essas fronteiras se confundem, vivem um luto coletivo que raramente recebe cuidado.
Esse luto tem características próprias. Ele frequentemente não pode ser ritualizado de forma completa, a família que tem medo de fazer o velório, a mãe que não pode ir ao cemitério porque o território está sob tensão, o amigo que não chora em público porque chorar pode parecer fraqueza. A elaboração do luto, que Freud reconhecia como trabalho psíquico necessário, encontra obstáculos materiais e territoriais que a clínica convencional não sabe como acessar.
O que a psicologia comunitária oferece
A psicologia comunitária brasileira, com seus desdobramentos em saúde coletiva, em projetos sociais, em trabalho com comunidades em situação de vulnerabilidade, tem ferramentas para pensar esse sofrimento. Ela reconhece que saúde mental não se faz apenas no espaço fechado entre psicólogo e paciente, mas também na rua, na escola, no centro comunitário, na relação com o território.
Mas essa psicologia é subfinanciada, mal reconhecida academicamente e raramente está nos currículos dos cursos de graduação de forma consistente. Formamos psicólogos para consultórios que a maioria da população não pode acessar, enquanto o sofrimento maior, o sofrimento estrutural, territorial, crônico, aguarda, sem cuidado suficiente.
Em abril, quando a luz já diminuiu e o outono se consolida, é possível fazer uma escolha: olhar para o sofrimento nas margens como problema de política pública e de formação profissional, ou continuar tratando-o como caso isolado, individual, a ser resolvido quando, e se, ele conseguir chegar a um consultório.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.