O Dia do Trabalhador passou ontem. As manifestações, os discursos, os posts sobre conquistas históricas do movimento operário. Tudo isso tem sentido e história. Mas há uma pergunta que raramente aparece nessa data: a quem chegaram os direitos trabalhistas que comemoramos?
A CLT foi promulgada em 1943. Trabalhadores domésticos, categoria composta majoritariamente por mulheres negras no Brasil, estiveram durante décadas excluídos de sua proteção integral. Só em 2015, com a regulamentação da PEC das Domésticas, essa inclusão se tornou juridicamente mais completa. E ainda hoje, na prática, a informalidade, a ausência de fiscalização e as relações de poder assimétricas fazem com que os direitos no papel não se convertam em direitos vividos.
Saúde mental no trabalho: para quem?
O debate sobre saúde mental no trabalho se expandiu muito nos últimos anos. Burnout entrou no CID-11 como fenômeno ocupacional. Empresas falam de bem-estar psicológico. Benefícios de saúde mental aparecem em pacotes de trabalho remoto.
Esse debate, em sua versão dominante, tem um sujeito implícito: o trabalhador formal, qualificado, de classe média, que trabalha com computador e tem acesso a plano de saúde. Para esse trabalhador, a conversa sobre burnout é relevante e necessária.
Mas existe outro trabalhador, que não aparece nessa conversa. O trabalhador por conta própria que não pode parar de trabalhar porque não tem rede de proteção. O gig worker entregando comida sob chuva, sem vínculo empregatício, sem acesso a afastamento por doença, sem ninguém para ouvir quando o sofrimento chega. O trabalhador doméstico que não pode pedir licença sem perder o emprego. O trabalhador rural em condições de vulnerabilidade extrema.
Racismo no trabalho e seus efeitos psíquicos
Há um corpo crescente de evidências, tanto na literatura internacional quanto na produção brasileira, sobre os efeitos do racismo no ambiente de trabalho sobre a saúde mental. Microagressões repetidas, promoções negadas, preterimento em processos seletivos, exposição ao estereótipo de incompetência, tudo isso tem correlatos psíquicos documentados.
O conceito de "teto de vidro", que descreve as barreiras invisíveis que impedem mulheres de ascender em hierarquias corporativas, precisa de um complemento brasileiro: o "chão de ferro" que mantém trabalhadores negros nos estratos mais baixos e mais precarizados do mercado, independentemente de qualificação. Isso não é metáfora, é estrutura de distribuição de oportunidades que se reproduz com regularidade suficiente para ser analisada.
O que a psicologia do trabalho pode fazer
A psicologia organizacional e do trabalho tem potencial para ser um campo de denúncia e transformação. Quando um psicólogo atua dentro de uma organização, ele não está apenas cuidando de indivíduos, está dentro de uma estrutura de poder que produz sofrimento de forma sistemática. Fingir neutralidade nessa posição é uma escolha política disfaçada de técnica.
O CFP e os CRPs têm debatido a posição ética do psicólogo nas organizações. A pergunta central, a quem serve meu trabalho?, não tem resposta única, mas precisa ser feita com regularidade.
Neste começo de maio, quando os ganchos se acumulam, Dia do Trabalhador ontem, Dia das Mães em dez dias, Luta Antimanicomial em dezoito, abolição em treze, vale lembrar que a luta por saúde mental é também luta trabalhista, também luta racial, também luta feminista. Não dá para separar o sofrimento da estrutura que o produz. E a psicologia que tenta fazer isso continua, involuntariamente, servindo à estrutura.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.