A resolução CFP 09/2024 entrou em vigor cravando um divisor. Um ano depois, conversei com cinco psicólogos brasileiros que estavam adaptando suas práticas. As respostas surpreenderam.

Não há uma posição unificada. O que há é uma constelação de leituras que vale mapear, porque cada uma carrega implicações práticas distintas para o que vai ser a clínica psi brasileira na próxima década.

O boicote silencioso

O primeiro grupo simplesmente parou. Desligaram ferramentas de IA do fluxo clínico. Voltaram a anotações manuais, sem auxílio algorítmico de qualquer tipo. "Não confio na regulamentação atual para saber o que é permitido sem risco", disse uma das clínicas entrevistadas.

É uma postura legítima. Também tem custo. Significa abrir mão de ganhos reais em organização de prontuário, transcrição de sessão, busca em literatura científica.

A adoção crítica

O segundo grupo permaneceu usando IA, mas com auditoria mais cuidadosa. Cada saída de modelo agora é revisada antes de entrar no prontuário. Cada prompt é construído para não vazar dados identificáveis.

Esse grupo argumenta que a resolução não proíbe IA, apenas exige human-in-the-loop estruturado. Sob essa leitura, a regra modernizou a prática sem inviabilizá-la.

A apropriação criativa

O terceiro grupo foi mais longe. Construíram fluxos próprios usando modelos locais, sem dados saindo do consultório. Um deles está rodando Llama 3.3 em servidor doméstico para apoio a documentação clínica, com zero envio de dados a terceiros.

É caro. Exige conhecimento técnico que poucos psicólogos têm. Mas é uma resposta interessante ao espírito da regulamentação: manter controle total sobre o dado clínico, sem abrir mão das ferramentas.

O que vem depois

A revisão programada da resolução acontece em 2026. Antecipo três frentes de debate: ampliação dos casos de uso permitidos, exigência mais firme de auditoria local, e definição mais clara do que constitui "modelo confiável" sob critérios CFP.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.