Conversei, ao longo de 2025, com cinquenta pacientes brasileiros em consultórios de cinco capitais. A pergunta era simples: você usou ChatGPT ou outra IA antes de marcar primeira consulta?
Trinta e oito responderam que sim. Vinte e três usaram regularmente nos últimos seis meses. Sete chegaram em primeira sessão com material gerado por IA na mão. Os números não vêm de estudo formal e não pretendem ser representativos. Vêm de conversa clínica.
O que esses pacientes buscavam na IA
Três padrões aparecem com regularidade. Primeiro, validação de hipótese diagnóstica autoidentificada. Paciente lê sobre transtorno em vídeo curto, pergunta à IA se os sintomas batem, ouve resposta calibrada para evitar diagnóstico mas que frequentemente confirma. Segundo, alivio imediato. Paciente em crise às três da manhã conversa com IA porque humano não está disponível. Terceiro, prática conversacional para coisa que diria à terapeuta humana. Ensaiar.
Os três usos têm valor real. Também têm limites importantes.
O que muda na clínica
A primeira sessão de paciente que veio precedido de IA tem textura diferente. O paciente frequentemente chega com vocabulário técnico próprio, com hipótese diagnóstica articulada, com expectativa de que a sessão vai validar ou refutar o que a IA disse.
A escuta clínica precisa abrir espaço para o que está atrás disso. A hipótese da IA pode estar certa, errada, ou parcialmente certa. Não é o foco. O foco é o que sustentava a busca antes da IA entrar.
O que três meses de uso fazem
Pacientes que usam IA generativa regularmente para conversar sobre questões pessoais ao longo de meses desenvolvem padrão específico. Conhecem as limitações da ferramenta. Sabem quando ela é útil e quando não é. Em muitos casos, mantêm uso paralelo a terapia humana, com função distinta.
Em alguns casos, o uso vira substituição. Aqui a clínica precisa ter conversa explícita sobre o que cada formato pode e não pode oferecer.
O que esperar em 2026
A regulamentação CFP 09/2024 trata de IA usada por profissional psicólogo. Não trata diretamente de IA usada por paciente antes ou paralelo à terapia. Esse vazio regulatório vai exigir orientação técnica em algum momento. Discussão começa em 2026.
Enquanto isso, no consultório, vale incluir pergunta sistemática sobre uso de IA na anamnese. Vale escutar sem julgamento o que o paciente conta. Vale ajustar o trabalho clínico ao formato que cada paciente traz.
A IA chegou na clínica pela porta dos fundos, via paciente. Cabe à clínica recebê-la com a mesma atenção que se daria a qualquer presença nova.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.