O mercado de dispositivos vestíveis de saúde cresceu de forma acelerada nos últimos anos, e com ele uma promessa sedutora: quantificar o bem-estar. Seu relógio inteligente agora mede sono, variabilidade de frequência cardíaca, nível de estresse inferido, oxigenação sanguínea, e, nos modelos mais recentes, tenta estimar estados de humor a partir de padrões fisiológicos. É uma quantidade impressionante de dados. A pergunta que poucos fazem antes de apertar "aceitar termos de uso" é: quem tem acesso a isso, por quanto tempo, e para quê?

Esta não é uma pergunta paranoica. É uma pergunta de saúde pública.

O que os wearables realmente medem

É importante começar com honestidade técnica: wearables medem proxies fisiológicos, não estados psicológicos. A variabilidade de frequência cardíaca é um indicador razoável de ativação do sistema nervoso autônomo, e há literatura consistente relacionando-a a estados de estresse. Mas um coração acelerado pode significar ansiedade, exercício físico, excitação sexual, ou simplesmente que você tomou café. O dispositivo não sabe a diferença.

Quando um app transforma esses dados em "seu nível de estresse hoje é 73/100", está fazendo uma inferência, não uma medida. Esse número tem aparência de precisão clínica sem ter respaldo diagnóstico. O problema não é que seja inútil: o problema é que muitos usuários tratam como diagnóstico o que é, na melhor das hipóteses, um sinal para reflexão.

O problema dos dados íntimos

O que torna os dados de saúde mental coletados por wearables diferentes de outros tipos de dado digital é sua natureza: eles dizem respeito ao funcionamento interno do corpo em momentos de vulnerabilidade. Saber que alguém dormiu duas horas por semana durante um mês, que sua frequência cardíaca dispara toda segunda-feira às oito da manhã, e que ela faz isso há dois anos, é saber algo muito íntimo sobre essa pessoa. Possivelmente mais íntimo do que o que ela conta ao psicólogo.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica dados de saúde como dados sensíveis, exigindo consentimento específico e tratamento diferenciado. Na prática, o que isso significa para os grandes fabricantes de wearables, empresas americanas e asiáticas operando em território nacional, ainda está sendo testado. O Conselho Federal de Psicologia, ao regulamentar o uso de tecnologias em contextos psicológicos, tem se debruçado mais sobre o atendimento online do que sobre o ecossistema de dados gerado fora do consultório. Essa lacuna regulatória é real.

O que acontece com seus dados de sono às 3h

Quando seu relógio registra que você acordou às 3h17 e seu ritmo cardíaco ficou elevado por quarenta minutos, esse dado vai para um servidor. Dependendo da empresa, pode ser compartilhado com parceiros analíticos, pode ser usado para treinar modelos de machine learning, pode, em mercados estrangeiros, ser vendido a seguradoras. As políticas de privacidade dizem tudo isso em linguagem que ninguém lê.

Isso não é cenário especulativo: é o modelo de negócio de boa parte das plataformas de saúde digital. Os dados são o produto, e o usuário é simultaneamente consumidor e fornecedor.

Para populações específicas, trabalhadores com condições preexistentes, pessoas em tratamento psiquiátrico, funcionários em empresas que oferecem wearables como "benefício de bem-estar", os riscos são maiores. Há casos documentados, fora do Brasil, de dados de atividade física e sono sendo usados em disputas trabalhistas. A intimidade do seu pulso pode ter valor jurídico antes que você perceba.

O que fazer com essa informação

Não estou argumentando que wearables são inúteis, para pacientes com certas condições cardíacas, para atletas, para pessoas que querem cultivar mais consciência corporal, podem ser genuinamente úteis. O que estou argumentando é que a adoção acrítica de um dispositivo que coleta dados íntimos merece atenção que raramente recebe.

Para psicólogos que trabalham com pacientes que usam esses dispositivos, algumas perguntas valem ser feitas em sessão: o paciente usa os dados do wearable de forma reflexiva ou obsessiva? A quantificação está auxiliando o autoconhecimento ou substituindo a escuta interna? Existe alguma relação empregadora-funcionário mediando o uso do dispositivo?

Para o usuário geral: ler a política de privacidade é impraticável, mas saber, ao menos, em qual país o dado é armazenado e se a empresa tem histórico de compartilhamento com terceiros já é um começo. O corpo merece privacidade. Inclusive o corpo que dorme mal às 3h de fevereiro.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.