No começo de abril, o Dia Mundial de Conscientização do Autismo reacende conversas importantes sobre acesso, inclusão e representação. Uma dessas conversas, menos frequente do que deveria ser, é sobre design digital. Sobre como os aplicativos, plataformas e interfaces que ocupam cada vez mais espaço na vida cotidiana foram construídos com um usuário padrão em mente: um usuário com processamento sensorial típico, com tolerância a ambiguidade social, com capacidade de alternar rapidamente entre tarefas, com atenção que responde à mesma lógica de recompensa que os engenheiros de produto usaram para calibrar os sistemas de notificação.
Esse usuário padrão é uma ficção. E para pessoas autistas, com TDAH, dislexia, ou outras formas de neurodivergência, a distância entre a ficção e a realidade se paga em energia cognitiva, o chamado "custo de mascaramento" que também existe no mundo digital.
O que o design de atenção não considera
A maioria das grandes plataformas digitais foi construída em torno de um objetivo explícito: capturar e manter atenção. Notificações calibradas para criar urgência, feeds infinitos que não têm ponto de parada natural, interfaces que recompensam o engajamento frequente. Para um usuário típico, esse design é exaustivo. Para uma pessoa com TDAH, pode ser literalmente viciante num sentido funcional, não metafórico.
O sistema de recompensa do TDAH responde de forma diferente à novidade, à dopamina do "novo post", ao gancho da notificação. Isso não é fraqueza de caráter, é neurobiologia. O problema é que as plataformas maximizam exatamente os gatilhos que tornam a regulação mais difícil para pessoas com essa configuração neurológica.
Por outro lado, a mesma plataforma que hipernova uma pessoa com TDAH pode ser insuportável para uma pessoa autista por razões opostas: a imprevisibilidade do feed, a sobrecarga sensorial de vídeos que começam automaticamente, a ambiguidade das interações sociais mediadas por texto sem marcadores de tom, a mudança constante de interface a cada atualização.
O que a literatura emergente aponta
A intersecção entre neurodivergência e tecnologia digital é uma área de pesquisa relativamente nova, e a cautela com generalizações é necessária. Há indícios, porém, de que adultos autistas relatam experiências muito heterogêneas com tecnologia: para alguns, as interações mediadas por texto reduzem a demanda de processamento social implícito que a interação presencial exige, isso pode ser facilitador. Para outros, a imprevisibilidade das plataformas sociais e o volume de informação não estruturada são fontes de sobrecarga.
O que parece consistente na observação clínica é que neurodivergentes desenvolvem estratégias próprias de navegação digital, mas essas estratégias custam energia que poderia ser usada de outra forma se o design considerasse sua existência desde o início.
O movimento de design acessível e onde estamos
Existe um campo, ainda minoritário na indústria de tecnologia, que pensa o design digital a partir da neurodiversidade. O conceito de "design universal" inclui, em teoria, usuários com diferentes perfis cognitivos e sensoriais. Na prática, a acessibilidade digital tende a ser pensada em termos de deficiência visual ou motora, leitores de tela, contraste, tamanho de fonte. A acessibilidade cognitiva e sensorial é tratada como secundária, quando tratada.
No Brasil, a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) estabelece obrigações de acessibilidade digital que, em tese, cobrem também usuários neurodivergentes. A implementação prática, porém, é inconsistente. Empresas de tecnologia internacionais que operam no país raramente foram desafiadas especificamente nesse quesito.
O que psicólogos podem fazer
Para psicólogos que atendem adultos e crianças neurodivergentes, mapear o ambiente digital do paciente é tão relevante quanto mapear o ambiente escolar ou familiar. Quais plataformas o paciente usa? Que tipo de dificuldade experimenta? Há algum ajuste que o próprio paciente desenvolveu, modo escuro, silenciamento de notificações, uso de apps específicos, que funciona?
Essa conversa também pode ser psicoeducativa: muitos pacientes neurodivergentes ainda interpretam suas dificuldades com certas interfaces como falha pessoal. Nomear que o design foi construído sem eles em mente pode ser, em si, terapêutico. O problema não é o cérebro deles, é o produto que não considerou que esse cérebro existe.
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