Imagina a cena: você está sentada no Rio Vermelho, notebook aberto, headphone no ouvido, e começa a assistir a um documentário curto que alguém compartilhou no grupo do WhatsApp. Quinze minutos de depoimentos sobre internação involuntária, câmera próxima, rostos reais. Você fecha a aba com um aperto no peito e fica pensando: isso que a tela faz, essa coisa de nomear a dor de outro de um jeito que ressoa na sua, é exatamente o que torna o audiovisual um objeto psicológico digno de atenção clínica.

Hoje é Dia do Cinema Brasileiro. A data existe desde 2008 para marcar 19 de junho de 1898, quando Afonso Segreto apontou a câmera da varanda de um navio para a Baía de Guanabara e fez os primeiros registros em movimento do país. Mais de um século depois, a imagem em movimento não cabe mais só na tela grande. Está no celular, no reel de trinta segundos, na série que uma pessoa assiste sozinha no quarto às duas da manhã quando não consegue dormir. E junto com ela viajam representações da mente humana, da loucura, do sofrimento, da terapia, que chegam ao consultório antes do paciente ter qualquer palavra técnica para nomear o que sente.

A tela que nomeia e a tela que deforma

Existe uma diferença enorme entre uma obra audiovisual que dá linguagem à dor e uma que simplesmente a espetaculariza. Filmes como "Bicho de Sete Cabeças" (2001), de Laís Bodanzky, fizeram algo raro: mostraram o sistema manicomial brasileiro por dentro, com a perspectiva de quem está aprisionado nele, sem romantizar nem caricaturar a loucura. A obra ancora o espectador numa realidade institucional concreta, brasileira, que muita gente que nunca foi internada desconhece por completo. Esse tipo de representação pode ter um efeito que a literatura em psicologia chama, em termos gerais, de expansão de perspectiva: a pessoa que assiste começa a entender que certos sofrimentos têm contexto, têm história, têm uma dimensão política além do biológico.

O problema é quando a tela faz o movimento contrário. Séries e vídeos curtos que tratam ansiedade como identidade estética, que transformam diagnósticos em badges de pertencimento, que mostram terapia como sequência de revelações dramáticas seguidas de cura linear: esses formatos criam expectativas que a clínica real não vai conseguir sustentar. A pessoa chega achando que uma boa sessão funciona como um roteiro bem amarrado, com climax emocional e resolução no mesmo episódio.

O paciente que veio do TikTok (e o que isso exige da clínica)

Nos últimos anos, um fenômeno novo se consolidou: a chegada de pacientes que já chegam "diagnosticados" por conteúdo audiovisual. Não necessariamente de forma errada, diga-se. Há produções de qualidade, criadas por profissionais de saúde mental, que realmente ajudam pessoas a reconhecer sintomas que nunca tinham conseguido articular. Quando alguém assiste a um vídeo sobre TDAH em adultos e pela primeira vez entende por que sempre teve dificuldade com determinadas tarefas, isso pode ser o primeiro passo para buscar ajuda. A tela funcionou como porta.

O que a clínica precisa aprender a fazer, nesse cenário, é trabalhar com a imagem que o paciente trouxe. Não simplesmente corrigir ou confirmar o diagnóstico autodeclarado, mas perguntar: o que você viu naquele conteúdo que te tocou? Que parte da história daquela pessoa você reconheceu em você? Esse movimento transforma um possível obstáculo (o paciente que já chegou com a conclusão pronta) num material clínico rico. A representação audiovisual funcionou como um espelho; a terapia pode perguntar o que exatamente o espelho mostrou.

Há também o outro lado. Há indícios, na prática clínica e em discussões da área, de que certos formatos de conteúdo sobre saúde mental, especialmente os que trazem sintomas descritos de forma muito detalhada e muito identificável, podem contribuir para o que se chama de contágio sintomático: a pessoa passa a reconhecer em si sintomas que antes não organizava daquela forma, não necessariamente porque os desenvolve, mas porque a narrativa disponível passa a preencher espaços antes vagos. Isso não é razão para censurar o conteúdo; é razão para que a clínica esteja atenta ao processo.

Streaming, vídeo curto e a fragmentação da narrativa da dor

O formato importa tanto quanto o conteúdo. Um longa-metragem como "Bicho de Sete Cabeças" exige que o espectador sustente atenção por noventa minutos numa experiência desconfortável. Um reel de quarenta e cinco segundos sobre "sinais de que você tem ansiedade" oferece uma gratificação imediata de reconhecimento sem nenhuma complexidade.

Isso tem consequências. A mente habituada ao vídeo curto chega ao consultório com dificuldade de sustentar o silêncio necessário para que algo mais fundo emerja. A tolerância ao desconforto produtivo, que é o motor de qualquer processo terapêutico de verdade, fica comprometida quando o repertório de narrativa sobre dor psíquica é feito quase todo de conteúdo que resolve rápido, que explica em lista, que oferece cinco dicas aplicáveis hoje.

Não é um problema individual de quem assiste. É um problema de ecologia narrativa: o ambiente audiovisual disponível treina um certo tipo de relação com a subjetividade, e a clínica opera dentro desse ambiente, não fora dele.

O que o Dia do Cinema Brasileiro nos pede

Uma data que celebra a chegada da imagem em movimento ao Brasil é também uma boa oportunidade para perguntar: que imagens de saúde mental o audiovisual brasileiro tem produzido? Há produções que mostram o CAPS de dentro, a realidade da RAPS, o sofrimento que não é fotogênico nem dramático, que é só cansaço e descontinuidade de cuidado? Ou o sofrimento psíquico só ganha tela quando é extraordinário, agudo, esteticamente interessante?

Essa pergunta interessa à clínica porque as representações que circulam moldam o que as pessoas conseguem nomear, pedir, esperar. Uma cultura audiovisual que mostra só certas formas de sofrimento cria zonas de invisibilidade para todas as outras. E as pessoas que vivem nessas zonas chegam ao consultório sem nem saber que têm direito à palavra.

O cinema que nos pertence, desde aquela câmera na varanda em 1898, pode ser ferramenta de saúde ou de distorção. A diferença está em quem tem acesso à câmera, o que se decide mostrar, e como a imagem circula. E isso devolve uma responsabilidade desconfortável para quem atende: a imagem chegou antes de nós e não vamos desinstalá-la. O paciente não entra mais no consultório como página em branco, entra como segunda exibição. Se a clínica insistir em tratar a tela como ruído a ser corrigido, vai perder o que ela é de fato, o primeiro roteiro que a pessoa encontrou para uma dor que ainda não tinha nome. O trabalho não é apagar esse roteiro. É ajudar a pessoa a reescrevê-lo na primeira pessoa.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.