Sexta-feira, primeira semana de julho, grupo de mães e pais da escola no zap. Alguém manda print do relatório semanal de tela do filho: seis horas e quarenta minutos por dia, media a família toda inteira, e o comentário embaixo é só um emoji de cara chorando. Ninguém no grupo reage com surpresa. Todo mundo já sabia, no fundo, que julho ia ser assim. É a lógica mais óbvia do mundo: escola fecha, rotina esvazia, e alguma coisa precisa preencher aquele tanto de hora que sobrou. Na maioria das casas brasileiras, quem preenche é uma tela.

Eu queria escrever este texto sem demonizar o celular, porque essa conversa já foi feita demais e chegou a lugar nenhum. Toda família com criança em casa sabe que tem tela demais e sabe também, com misto de culpa e cansaço, por que ela está ali: porque tem que trabalhar, porque não tem quintal, porque não tem primo por perto, porque o tempo de adulto também encolheu. O que eu queria pautar é outra coisa, mais incômoda: não é só quantidade de tela que está em jogo nas férias. É o que a tela substitui, especificamente, o tédio.

O tédio não é um buraco a ser tapado

Existe uma ideia meio recente e meio equivocada de que tédio é falha de projeto, um bug na infância que cabe a nós, adultos, corrigir com estímulo suficiente. Fila de aplicativo educativo, curso de férias, agenda cheia de atividade "produtiva". Mas quem trabalha com desenvolvimento infantil tende a enxergar o tédio de outro jeito: como estado funcional, não vazio a ser tapado. É nele que a criança aprende a tolerar a própria mente sem estímulo externo constante, e é dali que costuma nascer um dos gestos mais interessantes da infância, que é inventar o que fazer. Dificilmente se inventa uma brincadeira nova estando o tempo todo ocupado. Inventa-se mais estando parado, sem saber o que fazer, até que alguma coisa nasça daquele nada.

Isso não é romantismo de quem cresceu sem internet. É leitura compartilhada por psicólogos do desenvolvimento, de que a capacidade de sustentar o próprio tédio sem fugir dele está ligada ao que depois vira autorregulação, criatividade e tolerância à frustração na vida adulta. A literatura sobre isso ainda é mais conceitual do que estatística fechada, prefiro não fingir precisão que não tenho. Mas o raciocínio clínico é consistente: toda vez que o tédio é resolvido de fora, antes que a criança tenha chance de resolvê-lo de dentro, ela perde o treino. E hoje o "de fora" chega mais rápido do que nunca, porque cabe na palma da mão e está sempre ligado.

O algoritmo não erra o alvo, ele é feito pra não errar

Aqui entra o ponto que mais me interessa e que raramente aparece: plataforma de vídeo curto, jogo com recompensa variável, feed que nunca acaba, tudo isso foi desenhado por gente competente pra capturar exatamente o momento em que a atenção da criança começaria a vagar. Não é acidente, é engenharia de produto. O tempo ocioso é, pra quem monetiza atenção, o recurso mais valioso que existe, porque é justo ali que a pessoa está disponível pra ser capturada. Em julho, com a rotina escolar fora do ar, esse tempo disponível multiplica, e a oferta de captura também.

Não acho justo tratar isso só como guerra entre pais heroicos e telas vilãs. A Sociedade Brasileira de Pediatria e a Organização Mundial da Saúde têm recomendações de tempo de tela por faixa etária, vale a pena a família dar uma olhada nelas, mas reduzir a conversa a número de hora perde a textura daquele tempo. Duas horas assistindo tela, com um adulto por perto comentando junto, é uma coisa. Duas horas de rolagem sozinho, ininterrupta, entre um vídeo de quinze segundos e outro, é completamente diferente, mesmo que o relógio marque o mesmo número.

O que fica quando a tela ocupa o lugar do nada

Na prática clínica, é comum ouvir de pais de adolescentes uma queixa parecida, ainda que raramente nomeada assim: "meu filho não sabe mais ficar sem fazer nada". Não é que a criança perdeu a capacidade de brincar sozinha, é que nunca teve chance de treinar aquele músculo, porque o intervalo entre o impulso do tédio e a resposta a ele foi, sistematicamente, preenchido antes que ela precisasse resolver. Esse intervalo pequeno e chato é onde mora boa parte do que a psicologia do desenvolvimento chama de função executiva: esperar, tolerar, buscar solução própria, se frustrar e seguir tentando.

Isso não quer dizer que toda tela é ruim ou que brincadeira "analógica" é automaticamente superior. Seria ingenuidade. Tem jogo de tela que exige planejamento, cooperação, narrativa, coisas ricas do ponto de vista cognitivo. O problema não é a tela em si, é o desenho de consumo contínuo sem fricção, que não deixa espaço pra vazio nenhum se instalar, porque o vazio é justo o que o produto foi feito pra não permitir.

O que dá pra fazer sem virar campanha de culpa

Não tenho fórmula fechada, e desconfio de quem tem. Mas dá pra pensar em alguns movimentos possíveis pra quem atende família ou é família nas férias:

  • Nomear o tédio antes de resolvê-lo. Quando a criança reclama "não tenho nada pra fazer", segurar a resposta automática de entregar o celular já é uma intervenção.
  • Diferenciar tela acompanhada de tela solitária, porque o efeito psíquico não é o mesmo.
  • Observar o próprio tédio do adulto responsável, porque com frequência é o cansaço de quem cuida, não só a demanda da criança, que empurra o aparelho pra frente.
  • Lembrar que férias longas sempre foram tempo de invenção mais do que de programação. A casa cheia de primo, o quintal, o "vai lá fora" da avó, tudo isso também era, sem saber, forma de proteger o tédio produtivo.

Talvez o convite de julho não seja tirar a tela da mão da criança com culpa, porque isso raramente funciona e costuma virar bronca sem efeito duradouro. Talvez seja outro: reservar, no meio da correria de férias com pouca rede de apoio que é a realidade de tanta família brasileira, um pedacinho do dia pra deixar o tédio acontecer sem pressa de resolver. Ver o que nasce daquele silêncio incômodo antes de qualquer aplicativo chegar pra preencher. Pode ser que nasça nada, na primeira vez. Pode ser que a criança reclame, chore, ache um saco. E pode ser, também, que dali saia a brincadeira mais estranha e mais dela do verão inteiro.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.