A expansão do atendimento psicológico online no Brasil nos últimos anos é uma das mudanças mais significativas que a profissão já experimentou em tempo tão curto. O que a pandemia acelerou de forma emergencial, a regulação do CFP, especialmente a Resolução nº 11/2018 e seus desdobramentos, foi consolidando como prática legítima e permanente. Hoje, é possível atender pacientes de todo o país sem sair do consultório. É possível que uma pessoa na zona rural do Maranhão seja atendida por uma psicóloga especializada de São Paulo.
Isso é, em muitos aspectos, genuinamente bom. Mas a narrativa de que a telepsicologia "democratizou o acesso" merece um exame mais cuidadoso, porque acesso não é igual para todos, e as barreiras que existiam antes da tela não desaparecem quando o atendimento vai para o online.
O que se ganhou, e o que se assume sem perguntar
O ganho real da telepsicologia é inegável: redução de deslocamento, maior flexibilidade de horários, possibilidade de alcançar territórios onde o serviço simplesmente não existia. Para psicólogos, a expansão do modelo possibilitou alcance e também, em muitos casos, maior viabilidade financeira da prática privada.
O que frequentemente se assume sem perguntar é que o paciente tem, em casa, as condições mínimas para uma sessão online: um dispositivo com câmera e microfone funcionando, conexão de internet estável, um espaço com privacidade sonora e visual, e a capacidade técnica de operar a plataforma escolhida. Essas condições parecem básicas até que você começa a perguntar com atenção sobre quem as tem e quem não as tem.
As camadas de exclusão que o modelo online cria
A exclusão na telepsicologia não é simples, ela opera em camadas. A primeira é tecnológica: ausência de dispositivo adequado, ausência de internet de qualidade. Em muitas periferias urbanas e em grande parte da zona rural brasileira, a conexão disponível é por dados móveis de qualidade variável, com franquia limitada que se esgota rapidamente em chamadas de vídeo.
A segunda camada é espacial: privacidade para uma sessão de psicologia pressupõe um espaço físico onde você possa falar livremente sem ser ouvido. Em famílias que compartilham um ou dois cômodos, esse espaço não existe. Pedir a um adolescente que more num quarto com dois irmãos para fazer terapia online é pedir algo que a disposição doméstica não comporta.
A terceira camada é de letramento digital: operar plataformas de videoconferência, gerenciar senha, receber link e acessar no horário certo. Para idosos, para pessoas com baixa escolaridade formal, para quem teve acesso tardio à internet, essa barreira pode ser intransponível sem suporte.
O que isso significa para o modelo de serviço público
O debate sobre telepsicologia no Brasil precisa ser separado por contexto: o atendimento privado, em que paciente e psicólogo negociam condições, tem uma lógica. O atendimento público, CAPS, UBS, serviços de saúde mental via SUS, tem outra. A transposição acrítica do modelo online para o serviço público pode criar novas formas de exclusão dentro de um sistema já permeado por desigualdade.
Em abril, com o outono instalado e as populações mais vulneráveis enfrentando mais pressão de todas as ordens, econômica, climática, de saúde, essa questão se torna ainda mais urgente. O paciente que precisa de atendimento e não tem onde fazê-lo online não desapareceu da lista de demanda, ele apenas ficou mais invisível.
O que a prática clínica pode fazer
Psicólogos que trabalham com pacientes de menor renda precisam desenvolver protocolos flexíveis: a possibilidade de alternar entre presencial e online conforme a condição de acesso do paciente naquele mês. Organizações que desenvolvem plataformas para a área de saúde mental precisam considerar designs que funcionem em conexões lentas e em dispositivos mais antigos.
E o debate regulatório sobre telepsicologia precisa incluir, de forma mais explícita, a questão do acesso equitativo, não apenas a qualidade técnica do atendimento para quem já consegue acessar, mas o que se faz com quem ainda não consegue. Porque ampliar o acesso sem ampliar equitativamente as condições de acesso não é democratização, é relocação da exclusão.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.