O Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, é uma data que convida a mais do que homenagem, convida à revisão. E há um campo em que essa revisão é especialmente necessária, e especialmente rara: a neurociência. A ciência que estuda o cérebro humano ainda opera, em larga medida, como se o cérebro humano fosse um objeto universal, estudado em laboratórios ocidentais, com participantes universitários, e cujos achados se aplicariam a toda a humanidade.
Essa suposição tem um nome: WEIRD, acrônimo cunhado por pesquisadores para descrever amostras predominantemente Western, Educated, Industrialized, Rich, Democratic. A crítica não é nova, mas suas implicações para a neurociência cognitiva, e para como entendemos memória, percepção, atenção, emoção, ainda estão sendo assimiladas de forma muito lenta.
O que varia e o que não varia
É importante ser preciso aqui, para não cair no extremo oposto: não se trata de afirmar que os cérebros indígenas funcionam de forma radicalmente diferente em termos de neurobiologia básica. Os mecanismos de potenciação sináptica, os circuitos de memória, a arquitetura do sono, esses são, em grande medida, compartilhados pela espécie. O que varia é como esses mecanismos são utilizados, moldados e expressos em função de experiências culturais, linguísticas e ambientais profundamente distintas.
A pesquisa em cognição intercultural, área ainda emergente, tem acumulado evidências de que aspectos como percepção espacial, raciocínio lógico, tomada de decisão e até reconhecimento de emoções variam de forma significativa entre culturas. Grupos indígenas com forte orientação espacial geocêntrica, que usam pontos cardeais absolutos em vez de referências egocêntricas como "esquerda" e "direita", apresentam capacidades de orientação que desafiam o que os paradigmas ocidentais consideravam limitações humanas universais.
Saberes indígenas e sistemas cognitivos
Os povos indígenas do Brasil, mais de 300 etnias, com línguas, cosmologias e práticas radicalmente distintas entre si, desenvolveram, ao longo de milênios, formas de conhecimento sobre o ambiente, sobre o corpo, sobre os estados mentais que merecem ser levados a sério como sistemas cognitivos complexos. Não como curiosidade etnográfica, mas como objetos legítimos de investigação científica.
O conhecimento etnobotânico de povos amazônicos sobre plantas com efeitos no sistema nervoso central, por exemplo, tem gerado pesquisa com impacto real, incluindo investigações sobre substâncias que hoje são objeto de estudos clínicos em contextos de saúde mental. O problema é que, nesse processo, frequentemente o saber originário é extraído sem o reconhecimento das comunidades que o geraram.
Há uma questão de epistemologia e uma de ética que estão entrelaçadas aqui. A neurociência que não reconhece a sofisticação cognitiva dos povos indígenas está, simultaneamente, perdendo dados relevantes e perpetuando uma hierarquia de conhecimento que tem raízes no colonialismo.
Para a clínica com populações indígenas
No Brasil, psicólogos e profissionais de saúde mental que atuam em contextos indígenas, em Casas de Saúde Indígena, em DSEIs, em unidades básicas, enfrentam desafios que os currículos de formação raramente cobrem. Categorias diagnósticas construídas em contextos ocidentais nem sempre se aplicam sem fricção. Estados que em uma cosmologia indígena têm sentido como parte de um processo de cura podem ser lidos por um protocolo clínico como sintomas patológicos.
Isso não significa suspender o julgamento clínico ou romantizar toda experiência como espiritualidade inatingível. Significa desenvolver a capacidade de não concluir antes de compreender, e de construir essa compreensão com as próprias comunidades, não apenas a partir delas.
A neurociência que leva a sério a diversidade humana tem muito a ganhar. E muito a dever, em primeiro lugar.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.