Existe uma tensão legítima que atravessa os consultórios, as famílias e as redes sociais toda vez que se aproxima o Dia Nacional do Orgulho Autista, celebrado em 18 de junho. De um lado, pessoas autistas que reivindicam sua identidade com precisão e com razão. Do outro, famílias de crianças não verbais que precisam de suporte intensivo e olham para o discurso do orgulho com uma mistura de alívio e estranheza. Nos dois casos, a neurociência é invocada como árbitro. O problema é que ela ainda não tem veredito fechado.

O que o paradigma da neurodiversidade diz, neurologicamente

O conceito de neurodiversidade, popularizado nas últimas décadas e cada vez mais presente no debate de política pública no Brasil, parte de uma ideia relativamente simples: o sistema nervoso humano varia. Essa variação não é necessariamente patologia. Ela é, em parte, o substrato de formas distintas de processar, de perceber e de estar no mundo.

Do ponto de vista neurológico, há achados consistentes que sustentam essa perspectiva. Estudos de neuroimagem funcional, de forma geral, mostram que cérebros de pessoas autistas apresentam padrões de conectividade distintos, não apenas deficitários. Há áreas de processamento sensorial frequentemente mais ativadas. Há redes de atenção que funcionam de forma diferente, não apenas pior. A noção de que o autismo é simplesmente um cérebro "quebrado" ou "atrasado" não resiste bem à leitura da literatura mais recente.

Isso não é romantização. É uma leitura mais fina do que a ciência tem produzido. O modelo do déficit puro, herdado das classificações mais antigas e ainda presente em parte da prática clínica brasileira, tende a reduzir o autismo a uma lista de ausências: ausência de contato visual, ausência de linguagem verbal típica, ausência de reciprocidade social esperada. O que essa leitura frequentemente ignora é o que está presente: hipersensibilidade que pode ser recurso ou sobrecarga dependendo do contexto, padrões de pensamento altamente sistemáticos, memória de trabalho organizada de formas não canônicas.

O que a neurociência ainda não sabe, e por que isso importa

Aqui é onde o rigor exige uma pausa. A neurociência do autismo está longe de oferecer um mapa completo. Parte do que circula em divulgação científica, inclusive em materiais bienintencionados de advocacia autista, extrapola achados preliminares de forma problemática.

Não sabemos, por exemplo, com precisão o que causa a maioria dos fenótipos autistas. A hipótese genética é forte para certos subtipos, mas o "autismo" enquanto categoria diagnóstica no DSM-5 e no CID-11 é heterogêneo a ponto de agrupar perfis neurológicos muito diferentes sob o mesmo guarda-chuva. Pesquisas feitas com amostras pequenas, em sua maioria europeias e norte-americanas, de perfis com fala desenvolvida e sem deficiência intelectual associada, não descrevem o espectro inteiro. Descrevem uma faixa dele.

Essa limitação metodológica tem consequência direta no Brasil. O acesso ao diagnóstico no SUS ainda é restrito e tardio, em especial para crianças em territórios vulneráveis, para meninas (cujo perfil clínico frequentemente escapa dos instrumentos calibrados para meninos) e para adultos que chegaram à maturidade sem qualquer rastreio. Quando a neurociência globalizada fala sobre autismo, ela frequentemente fala sobre um subconjunto específico do espectro, em condições de diagnóstico precoce e intervenção qualificada que não descrevem a realidade de boa parte do país.

O sofrimento que o discurso do orgulho não pode apagar

É preciso dizer isso com cuidado, mas é preciso dizer: celebrar a neurodiversidade não pode significar negar sofrimento real. Há pessoas no espectro que vivem com crises de regulação sensorial que impedem a vida cotidiana. Há autistas não verbais que dependem de suporte intensivo e permanente. Há famílias que exaurem seus recursos materiais e emocionais sem acesso a qualquer serviço especializado pelo SUS.

O modelo da neurodiversidade, quando bem aplicado clinicamente, não nega esse sofrimento. Ele propõe que o sofrimento, muitas vezes, não vem da variação neurológica em si, mas do atrito entre essa variação e um ambiente que não foi desenhado para acolhê-la. Escolas barulhentas demais, mercados de trabalho intolerantes a formas atípicas de comunicação, sistemas de saúde que até hoje capacitam mal seus profissionais para reconhecer autismo feminino ou autismo adulto tardio.

Essa distinção, entre sofrimento intrínseco ao autismo e sofrimento produzido pelo ambiente, é clinicamente relevante. Ela muda o alvo da intervenção. Em vez de tentar "normalizar" o perfil neurológico a qualquer custo, o que inclui práticas hoje consideradas eticamente questionáveis por entidades como o próprio Conselho Federal de Psicologia, a clínica pode trabalhar com adaptação ambiental, com estratégias de autorregulação que respeitem o perfil sensorial do sujeito, com suporte à comunicação alternativa quando necessário.

O que 18 de junho pode significar para a clínica brasileira

O reconhecimento oficial do Dia Nacional do Orgulho Autista no Brasil não é apenas um gesto simbólico. A data foi instituída pela Lei 15.365, sancionada e publicada no Diário Oficial da União em 31 de março de 2026, distinta do Dia Nacional de Conscientização sobre o Autismo de abril (Lei 13.652, de 2018). É parte de um processo mais longo de reconhecimento político e jurídico de que pessoas autistas são sujeitos de direitos, não apenas pacientes de um diagnóstico.

Para quem atende, para quem supervisiona, para quem está na residência ou no estágio supervisionado em qualquer serviço público, a data deveria provocar pelo menos uma pergunta: o que minha prática ancora em evidência real e o que ainda replica um modelo de déficit que a própria neurociência está revisando?

Não existe resposta pronta. Existe a disposição de manter essa pergunta aberta, de ler a literatura com olho crítico para a origem das amostras, de ouvir autistas adultos como interlocutores válidos sobre sua própria experiência, e de reconhecer que o orgulho e a necessidade de suporte não são opostos. São, muitas vezes, as duas faces de uma vida que merece dignidade em qualquer ponto do espectro.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.