Todo ano, em torno do dia 18 de maio, a Luta Antimanicomial ganha visibilidade. Manifestações, debates, memórias das condições em que viviam, e morriam, pessoas internadas em instituições psiquiátricas antes da Lei 10.216 de 2001. É um movimento que tem história, conquistas concretas e muitas batalhas ainda em curso. E tem, também, uma relação complexa com a neurociência, campo que a psiquiatria biológica frequentemente convoca como aliado, mas que o movimento antimanicomial às vezes trata com desconfiança, por razões que merecem ser compreendidas.

A tensão é real e produtiva, se houver honestidade de ambos os lados.

Por que o movimento antimanicomial desconfia da neurobiologia

A suspeita não é irracional. Ao longo da história da psiquiatria, argumentos biológicos foram usados para justificar práticas que hoje reconhecemos como violações de direitos: internações compulsórias indefinidas, lobotomias, tratamentos coercitivos aplicados com respaldo de autoridade científica. O "é biológico" funcionou, em muitos contextos, como um encerramento da discussão, e como uma forma de retirar do sujeito qualquer agência sobre seu próprio sofrimento.

Esse legado importa. Quando a neurociência contemporânea afirma que encontrou o "circuito da esquizofrenia" ou o "gene da depressão", é compreensível que quem viveu, ou atendeu, pessoas submetidas a lógicas reducionistas ouça com ceticismo. O ceticismo é calibrado.

O que a neurociência contemporânea realmente diz

A neurociência do sofrimento mental avançou muito, mas de forma diferente do que a cobertura midiática sugere. Não temos biomarcadores definitivos para a maior parte dos transtornos psiquiátricos. O que temos são correlações, alterações em parâmetros neurobiológicos associadas a certas condições clínicas, identificadas em grupos, com variação enorme entre indivíduos.

Isso significa que a neurobiologia explica o sofrimento mental? Não, no sentido de uma explicação causal completa. O que a pesquisa sugere é que o sofrimento mental tem correlatos neurobiológicos, que experiências como psicose, depressão grave ou trauma deixam marcas que podem ser detectadas em nível cerebral. Isso não significa que a causa é o cérebro, e que portanto a solução é apenas o cérebro. Causa e correlato não são a mesma coisa.

O que a RAPS tem a ver com o cérebro

A Rede de Atenção Psicossocial, RAPS, que estrutura o cuidado em saúde mental no SUS após a reforma psiquiátrica, opera a partir de um modelo que valoriza o território, o vínculo, a reinserção social, a autonomia. Esse modelo não é antibiológico; é mais do que biológico. Ele reconhece que o sofrimento acontece em corpos, mas também em relações, em histórias, em condições materiais.

A neurociência que leva a sério o ambiente não contradiz esse modelo, o apoia. Há evidências robustas de que fatores como violência, pobreza, isolamento social e trauma têm impacto mensurável no funcionamento cerebral. Isso é compatível com a ideia de que cuidar da saúde mental exige cuidar do contexto em que a pessoa vive, e não apenas medica o cérebro isolado.

Uma aproximação possível

O que seria uma neurociência comprometida com os princípios da reforma psiquiátrica? Provavelmente, uma neurociência que:

  • Não use dados biológicos para justificar internações compulsórias ou retirada de autonomia;
  • Reconheça que suas amostras são enviesadas e que pouco sabe sobre o cérebro de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social;
  • Contribua para fortalecer intervenções que funcionam nos serviços comunitários, não apenas em hospitais universitários;
  • Dialogue com os saberes das pessoas que vivem o sofrimento, não apenas com os que o estudam de fora.

Esse encontro ainda engatinha. Mas maio é um bom mês para insistir nele.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.